A CULPA não é sua? Somos todos CULPADOS! #EuNãoMereçoSerEstuprada

boca A CULPA não é sua? Somos todos CULPADOS! #EuNãoMereçoSerEstuprada

Protestos pela pesquisa do IPEA que revelou que 58,5% dos entrevistados brasileiros concordaram com a ideia de que mulheres provocantes pedem pelo estupro. Os selfies seguidos de #EuNãoMereçoSerEstuprada circulam pela web como um grito revolta. DE QUEM É A CULPA? É UM POUCO DE TODOS NÓS, ouso dizer, na contramão da reflexão vigente.

Viemos de um contexto histórico, ao menos este é o cenário de nosso país, de total exaltação da sensualidade e do culto ao corpo, ao prazer e ao sexo. Que o digam os carnavais da Sapucaí com toda a sua exuberância e seios fartos nos destaques dos carros alegóricos. O corpo feminino a muito é uma espécie de produto quando filmado ou fotografado, sem nenhuma ou com quase alguma roupa, para as revistas masculinas. Revistas de sacanagem é como a chamávamos no anos 80-90. De um tempo para cá, este “privilégio” foi estendido aos homens. Alguns também podem lucrar (bem menos que as mulheres) com a exposição do próprio corpo para mexer com os desejos e com a libido dos compradores desta publicações. Nem precisa dizer que este material está fartamente disposto na Internet.

Peito, bunda, lábios carnudos, vestidos provocantes: tudo a venda! Desde que alguém desceu até a “boquinha da garrafa” para “ralar”, minha percepção musical não foi mais a mesma. (e eu em sei se se isso tem cura) Além do que: Corpos sarados, panicats, “bailarinas” de programas de auditório, o que exploram em comum? A beleza desejante de suas bundas e peitos, é bom que se diga sem fazer rodeios com o palavrório usado aqui.

Daí que um dia vemos o resultado de uma pesquisa: “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. O levantamento mostrou que 42,7% concordaram totalmente com a afirmação e 22,4% parcialmente; 24% discordaram totalmente e 8,4% parcialmente. Das 3.810 pessoas entrevistadas, 66,5% eram mulheres. (Recalque?) Beijinho no ombro para elas?. E mais: 58,5% dos entrevistados brasileiros concordaram totalmente ou parcialmente com a frase “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”.

A esta altura, antes de fazer minhas ressalvas, afirmo que não concordo que alguém mereça ser estuprado de maneira alguma. E acho equivocado que um vestido ou um decote suscite em alguém o motivo para realizar um estupro. De quem é a culpa pelo estupro? Apenas do estuprador, evidentemente! Este é um ponto que é preciso reforçar inclusive com as crianças vitimas de abuso: no atendimento desta Vítimas, descobrimos que muitas delas carregam uma noção (inconsciente?) de que de alguma maneira foram culpadas. O estupro lhes serviria como punição!

Nada mais errado que isso. Só ao estuprador deve ser imputada a culpa pelo seu ato e a mais ninguém, se a questão é culpabilizar alguém. Então, de que somos culpados afinal? Somos culpados pelo resultado da pesquisa do IPEA. Culpados por vivermos em uma sociedade com valores deturpados sobre a inviolabilidade do corpo, a sacralidade do sexo e a estimulação exacerbada da sensualidade. Geramos uma sociedade caduca do ponto de vista da sexualidade humana, que protesta por não merecer estupro, mas que não vê erro algum em  almejar ser objeto de consumo nas páginas da Playboy.

O equívoco e a mentalidade doentia que a pesquisa demonstrou, gente que pensa que pode fazer o que quiser com o corpo alheio, é reflexo de uma sociedade que se comporta de maneira desonesta em relação às questões ligadas ao outro, à ética, ao corpo, ao desejo, à libido e ao belo. Uma sociedade mais equilibrada poderia não conseguir conter seus estupradores, mas teria uma porcentagem diferente de respostas sexistas como as que vimos publicadas pelo IPEA. Ninguém é culpado por ser estuprado, mas pode, em maior ou menor número, ser culpado por esta falta de noção de quem acha o contrário. Isto passa pelo nosso exemplo, pela educação que damos às nossas crianças, pela postura que temos em relação à coisificação do sensual e do erótico. Como afirmou Levinas “”somos responsáveis por todos, e eu, mais que todos”.