Arquivo da categoria: Levinas, responsabilidade, judaísmo, liberdade

Publicado na Revista da PUCSP meu artigo sobre Levinas e as lições da ética judaica.

RESUMO

A redescoberta da noção bíblico-talmúdica de responsabilidade se apresenta como uma alternativa, no âmbito da reflexão teológica, às
insuficiências da ética baseada no projeto filosófico da modernidade. Neste contexto, o resgate do ineditismo de tal responsabilidade revela uma relação fecunda entre o pensamento judaico e a teologia moral. O presente artigo, com o intuito de demonstrar esta fecundidade, apresenta o vigor ético da sabedoria veterotestamentária, partindo da perspectiva do filósofo judeu Emmanuel Levinas.

Palavras-chave: Responsabilidade, ética, Judaísmo, humanismo

Segue o link:

http://revistas.pucsp.br/index.php/reveleteo/article/view/19720/14602

10 pontos de vista sobre o amor ou, o amor: de Madre Tereza à Oscar Wilde.

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Listas encantam. Fiz meu Top10 de frases que realmente aprecio. Claro, sobre o amor.

1) “Porque quem ama nunca sabe o que ama nem sabe porque ama, nem o que é amar. Amar é a eterna inocência, e a única inocência é não pensar.” Fernando Pessoa

2) “Ser profundamente amado por alguém nos dá força, amar alguém profundamente nos dá coragem.” Lao Tse

3) ” Não ame pela beleza, pois um dia ela acaba. Não ame por admiração, pois um dia você se decepciona. Ame apenas, pois o tempo nunca pode acabar com um amor sem explicação.” Madre Tereza de Calcuta

4) “Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema” (Trecho do “Poeminha amoroso” de Cora Coralina)

5)  “De sofrer e de amar, a gente não se desfaz.” João Guimarães Rosa.

6) “Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.” João Guimarães Rosa (Again)

7) “Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.” Clarice Lispector

8) “A fé não é uma questão de existência ou não existência de Deus. É acreditar que o amor sem recompensa é valioso.” Emmanuel Levinas.

9) “No amor, o que vale é amar.” Chiara Lubich

10) “As mulheres existem para que as amemos, e não para que as compreendamos.” Oscar Wilde.

 

Faça o bem todo dia, um gestinho só faz toda a diferença.

 Faça o bem todo dia, um gestinho só faz toda a diferença.

J. R. Tolkien, autor dos livros O Hobbit e O Senhor dos Anéis, entre outros, nos brindou com belos diálogos que se intercalam às batalhas de suas personagens. No fundo, sua obra sempre expressou a luta do bem contra o mal. Hoje, muitos autores se esforçam em criar personagens tão mocinhos quanto bandidos, e daí a expectativa nem é esperar o modo como o bonzinho ganha no final. Se espera é que os malvados, simpáticos, paguem mas só um pouquinho e os bonzinhos, “sem sal”, e que depois se mostram não tão bons assim, estes… ah! Deixa pra lá. Volto a Tolkien e aos seus diálogos. Em um deles, o mago Gandalf diz:  “Saruman acredita que só grandes forças podem conter o mal, mas não é o que eu penso,  acho que são pequenos detalhes, ações diárias das pessoas que mantem o mal afastado, simples ações de bondade e amor!” (O Hobbit)

Bobagem a minha pensar que todos gostam de O Hobbit e estão familiarizados com estas personagens, ou que os ame tanto quanto eu. Bobagem a nossa, se não levarmos a opinião de Gandalf a sério! Que muitos de nós gostariam de mudar o mundo, eu não duvido. Aquele desejo bom de que os conflitos e a violência dessem trégua, de que apesar dos baderneiros, o país do gigante acordado realmente conquistasse uma nação mais honesta, um Brasil menos desigual, uma redução não de 0,20 (centavos) mas de 100% da corrupção. Claro, chega a ser ingênuo e pueril. E, como somos conscientes  dessa nossa ingenuidade, logo não esperamos realmente que tudo se resolva em definitivo, ao menos não aqui no nosso maravilhoso planeta imperfeito. Então, nos contentamos (e olha, já é lucro se contentar com isso!) com a ideia de um, já clichêmundo melhor. A diferença aqui é que não se espera por uma intervenção mágica que subverta a desordem, transformando-a na mais pura harmonia. Não. No caso exposto, o que queremos é que as coisas mudem a cada dia um pouquinho, que cada dia seja melhor que aquele que acaba de passar.

É claro, entendemos que as pequenas mudanças, capazes de produzir o nosso desejado mundo melhor, passam também pela nossa iniciativa própria. Nem vou dizer que é no modo nosso de estacionar de cada dia, de nos cumprimentar com um sorriso rotineiro, ou de promover em nosso banheiro aquela economia de água da torneira e, por onde passarmos, aquele esbanjamento de cordialidade e atenção, que as coisas, ao menos ao nosso redor, tendem a melhorar. Mas lembre-se do que disse o Gandalf (o ao menos dê um crédito à mensagem do autor do O Hobbit )! Os gestos de bondade e amor, “mantem o mal afastado…” e portanto, continuaremos a conviver com o mal, embora nos afastemos de um perfil de convivência do tipo “tudo junto e misturado”. Estejamos certos,  haverá ainda quem estaciona na vaga do idoso, quem esbanja a água da pia e quem economiza no humor.

Dito isso, há momentos, em que o que me resta é encontrar motivação na sabedoria de Madre Tereza de Calcutá: “Se você é um vencedor, terá alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros. Vença assim mesmo…. se você tem paz e é feliz, as pessoas podem sentir inveja. Seja Feliz assim mesmo… veja que, no final das contas, é entre você e DEUS. Nunca foi entre você e as outras pessoas.”

Pare de se queixar do que não tem e comece a criar o que quer.

desanimo Pare de se queixar do que não tem e comece a criar o que quer.

Já dizia um sábio profeta de nosso tempo, Dom Hélder Câmara: “É graça divina começar bem. Graça maior é persistir na caminhada certa. Mas a graça das graças é não desistir nunca”. Note que, para ele, começar já uma graça qualificada como divina! Aos que pensam que o recado aqui é “não desista”, deixo portanto a pergunta: mas você ao menos já começou?

Somos capazes de sonhar com uma vida diferente, tecer planos de lugares que ainda queremos conhecer, pessoas com quem desejaríamos estar, iniciamos regimes, fantasiamos a coragem de chegar no local de trabalho e surpreender a todos por estarmos com um brilho diferente nos olhos e com um ar de quem venceu a si próprio e, por não mais se auto-sabotar, descobriu finalmente como conquistar (e manter) a leveza da felicidade. Sonhamos, desejamos, queremos. A realidade entretanto, mantém seu aspecto de crueza, muitas vezes nos recordando que os “filminhos mentais” que reproduzimos e modificamos para  nós mesmos, são uma projeção fictícia, sonhos de um emprego melhor, um relacionamento melhor, uma casa mais ampla, uma vida mais digna. Quem conhece a chave para o sucesso sabe que, salvo as milagrosas exceções, é preciso sonhar coisas boas, desejar concretiza-las, planejar um ou mais modos de torna-las reais e daí (foco), suar a camisa! O grande vilão desta história não é sequer o tamanho do sonho, mas nossa alergia ao esforço. Eis então algumas frases inspiradoras para nos fazer querer começar e recomeçar a construir um mundo que tenha a cor de nossos melhores sonhos:

- O sofrimento é passageiro. Desistir é para sempre. (Lance Armstrong)

- Quem quer fazer algo encontra um meio. Quem não quer fazer nada arranja desculpas. (Provérbio árabe)

- O rio atinge seus objetivos, porque aprendeu a contornar os obstáculos. (Lao Tsé)

- Paciência e perseverança tem o efeito mágico de fazer as dificuldades desaparecerem e os obstáculos sumirem. (John Quincy Adams)

- O insucesso é apenas uma oportunidade para recomeçar de novo com mais inteligência. (Henry Ford)

- O sofrimento precisa ser superado e o único meio de superá-lo é suportando-o. (Carl Gustav Jung)

- Uma pedra intransponível para o pessimista é uma pedra de apoio para o otimista. (Eleanor Roosevelt)

- Suba o primeiro degrau da fé. Você não tem que ver toda a escadaria antes de subir o primeiro degrau. (Martin Luther King)

Por fim, se o plano “A” não deu certo, não se preocupe, o alfabeto tem mais 25 letras para você tentar.

Inspiração em cativar.

raposinha Inspiração em cativar.Estou concluindo uma mudança, o que inclui medir, montar, desencaixotar e (re)organizar. E, no meio dos meus livros que aos poucos saem das caixas e vão ganhando espaço na casa, reencontrei um amarelado exemplar de O Pequeno Príncipe. Sou réu confesso. Nunca o li por inteiro. Faltou-me a paciência e eu não sei bem quem é o tal pequeno príncipe e quais suas verdadeiras intenções, neste e em outro mundo. Mas algumas passagens do livro, conheço quase que de cor. E, como a literatura tem o poder de nos transmitir através das fábulas grandes verdades,(e é mais fácil digerir fábulas do lidar com algumas verdades “nuas e cruas”) destaco três pequenos trechos do livro, ciente que o que quero expressar está bem apresentado ali:

“Cativar algo quase sempre esquecido – disse a raposa. Significa ´criar laços´[… ] eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo […] se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieto e agitado: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… “

Saint Exupèry, cara sábio, né não?

A vida é dos outros, e minha a necessidade de intervir.

3189373232 f23c6ed014 z A vida é dos outros, e minha a necessidade de intervir.

Um erro é sempre um erro. Quando o comportamento de alguém que sequer conhecemos é  algo injusto ou ilegal, não fazer nada a respeito pode atrair a nós o adjetivo de omisso, quando não a acusação de cúmplices em um “mal-feito”. Nestes casos é correto intervir, mesmo que anonimamente, em vista do bem comum, da ordem, da tranquilidade e ou da paz. Quando porém nossa atenção recai sobre os comportamentos inadequados de pessoas com quem convivemos no dia-a-dia, a coisa certa a fazer nem sempre é clara.

Se o tal comportamento nos incomoda, chegando a ser repulsivo a nós, então o mais lógico seria expressarmos nossos sentimentos, certo? Não é tão fácil assim. A mente nestes casos inicia um verdadeiro processo de negociação, levando em conta perdas e ganhos: estamos dispostos a correr riscos de perder aquela amizade, ou aquela falsa sensação de paz (leia-se ausência de maiores problemas, pois o comportamento em questão já se apresenta como um problema) no espaço de convívio comum? Estamos abertos a, uma vez corrigindo o outro, receber como “gratidão” um feed-back negativo sobre nosso jeito de ser e de agir? Neste sentido, sabemos que nosso telhado também é de vidro e que temos limitações, então, será que o que me incomoda no outro não é um fruto “freudiano” dos nossos mecanismo de defesa?

Um bom exercício antes de tomar uma atitude em relação ao assunto em questão é prestar atenção ao que nos motiva em querer advertir os outros. Se a raiz de uma observação dirigida ao outro não for genuinamente um gesto de amor de nossa parte, ou seja, se no meio de nossas boas intenções (em falar, dizer, corrigir), existir também certa dose de egoísmo ou censura, a coisa provavelmente não terá o efeito que esperávamos e poderá acabar mal. Também é necessário nos policiar em relação aos nossos julgamentos. Nosso modo de ver o mundo,e isto inclui nossas crenças, não são mais que a nossa visão das coisas. Neste caso, a liberdade, inclusive a religiosa, é um valor a ser respeitado. É claro que podemos sim convidar a todos a compartilhar nossa visão de mundo. Não há riscos de ferir a liberdade de outrem quando se trata de um convite e não de uma imposição.

Recordo-me de ouvir a jovem da foto acima, Immaculée Ilibagiza, sobrevivente do maior genocídio que se tem notícia na história da África, dizer: “entre ser verdadeiro é ser amoroso, seja amoroso”. Ser amoroso (e não bajulador) não é a atitude de quem se omite, mas de quem sabe encontrar a hora e o modo certo de se expressar. É se perguntar se o outro está suficientemente preparado para ouvir naquele momento o que temos a lhe dizer. É criar aquela atmosfera de acolhimento e empatia, onde dizer um “sinto que isto não é legal” não pesa nem para quem fala e nem para quem escuta. Aproprio-me de uma frase normalmente atribuída ao pensador e santo católico Agostinho de Hipona: Ame [concretamente] e depois faça [fale] o que queres.

Nota: Este texto é fruto do feed-back de alguns amigos em relação ao texto anterior. Não leu? aproveita o embalo: http://sabedoriadeamar.wordpress.com/2013/10/24/ser-livre-ou-responsavel/

Ser livre ou responsável?

 Ser livre ou responsável?

Que quem ama cuida, ou deveria cuidar, isto parece que é já senso comum. Cuidar é tarefa fácil para alguns. Quem sente que nasceu com a responsabilidade em alta ou fez dela um valor, sabe que, se não toma cuidado, quer logo abraçar o mundo: se sente responsável pela pessoa que ama, pela casa, pelo cachorro (e, em tempo de invasão aos laboratórios de pesquisa, por todos os beagles do mundo), por muitos outros animais (baleias inclusas), pela natureza e, enfim, pelo mundo! Já ouvi de gente muito inteligente que, de tanto assumir os problemas dos outros, sente que as vezes lhe falta tempo para viver um pouquinho para si…

Há também quem se sente livre para não se responsabilizar. De qualquer modo, nossa responsabilidade passa pelo crivo de nossa liberdade. Eu escolho sobre o que quero ser responsável. Mas isto é ponto para mim e um problema para o mundo. Me explico: Algumas coisas tem em si um “fator ternura” e daí é fácil querer cuidar. Mas outras coisas acabam sendo deixadas à margem. Me refiro não apenas às pessoas “feias”, mas também aos animais “feios”, e aos espaços feios (inclusive aquele canto da casa que não queremos arrumar) e até aos comportamentos pessoais que há muito nos pedem: “hei, dê uma reorganizada em mim por favor!”

Gosto do que diz um rabino (Irving Bunim) na introdução de sua obra, Ética do Sinai: “Vemo-nos aceitando passivamente um princípio basicamente anglo-saxônico: ‘cuide de seus próprios assuntos.’ Ou, ‘se vir alguém fazendo algo errado, não interfira, isto não lhe diz respeito’. Nada poderia ser mais contrário à abordagem judaica… ” A este respeito, certo filósofo também judeu – o qual, gosto de lembrar, sobreviveu aos horrores da 2ª Guerra Mundial – afirma que o judaísmo entende responsabilidade como responsabilidade por aquilo que não é feito meu, ou por aquilo que nem sequer me diz respeito.

Surge em mim, em nós uma alarmante questão: Como assim? Sou OBRIGADO a ser responsável, até pelo que não é problema meu?  Onde fica então a minha liberdade se as coisas “de fora” me fazem responsáveis por elas? O fato é que as tais coisas “de fora”, isto é as coisas que não são do “meu eu comigo mesmo” nos atingem e nos governam mais do que imaginamos: paixões, encontros, simpatias, violência, assombros… Além disto, é somente na nossa participação em uma rede de relacionamentos, que a nossa liberdade se concretiza nesta ou naquela escolha específica.  Ou seja, somos donos de nós mesmos dentro de um quadro de exigências que o mundo “de fora” nos impõe. Nas palavras do tal filósofo, “não poderíamos ser livres a não ser que as responsabilidades nos dessem oportunidades para o sermos.”

Não se trata portanto de abraçar o mundo, o nome disso é megalomania, mas de contribuir com o que está ao alcance das mãos. Se o mundo dos que nos cercam, que é também o nosso mundo, for um mundo melhor, assim também o será para nós. Mãos a obra?

Para aprofundar:
BUNIM, Irving M. Ética do Sinai. 5ª Ed. São Paulo: Editora Sefer, 2012 , p. 6.
SANTE, Carmine de. Responsabilidade: o eu – para – o outro. São Paulo: Paulus, 2005.
LEVINAS, Emmanuel. Ética e Infinito. Lisboa: Edições 70, 2010.

 (Nota de  boas vindas ao blog: Este texto é a estreia de um espaço no qual quero externar temas que a muito me instigam!  São eles o amor, em todas as suas expressões, e a ética, em toda a sua significância. Todavia não me detive em explicar os significados destas duas tão poderosas palavras. Isto se dará no tempo e de modo direto, ou não!)