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Inspiração para a Quaresma, em um texto de Rubem Alves: A tristeza divina.

rubem alves Inspiração para a Quaresma, em um texto de Rubem Alves: A tristeza divina.

“Porque a tristeza de Deus produz mudança… mas a tristeza do mundo produz morte.” II Co 7:10

 As quaresmeiras aí estão. Flores de fevereiro e março, anunciando que nem só de cores brancas e verdes vive a alma humana, mas também de lilases e roxas. Nem só de alegrias, mas também de tristezas. A propósito, não é tarefa das mais fáceis empreender um “dedo de prosa”, mínimo que seja, sobre o tema da tristeza. Houve tempos em que a tristeza era prima irmã da poesia, da música, da vida. Pode-se dizer, com o testemunho de um bom número de músicas que ainda hoje cantamos, que a tristeza sempre foi a matéria prima do fazer poético. Quem nunca cantou: “Tristeza, por favor vai embora, minha alma que chora, está vendo o seu fim….”. Ou ainda: “Cantando eu mando a tristeza embora…” Mais: “Triste madrugada foi aquela em que perdi meu violão…”

Essas músicas testemunham um tempo em que a experiência da alegria e da beleza só eram possíveis a partir do reconhecimento de uma certa tristeza nas pautas musicais da existência. Os tempos hoje são outros. Num projeto de vida em que as pessoas são tidas como máquinas, qualquer sombra de melancolia, de tristeza, de dor, deve ser abolida. Por uma simples razão: máquina não sente dor! Aos saudosos e melancólicos do presente, resta-lhes apenas o afogar-se nos remédios. É assim que lidamos com nossas tristezas: afogando-nos nos compridos.

O trecho da tradição bíblica que está em epígrafe acima faz referência à tristeza segundo Deus. Dorothee Sölle assim o interpretou: A presença divina nunca é presença observadora: a presença divina é sempre dor ou alegria de Deus. Mas, o que distingue a tristeza divina das tristezas do mundo? pergunta o apóstolo dos gentios. Tristeza do mundo é tristeza que gira em torno de si mesma, patina sem sair do lugar. É tristeza que paralisa no remorso, na lástima, no mórbido ruminar as faltas passadas, na lamúria sem fim. Nada se transforma, nada se metamorfoseia, nada muda. É tristeza que não conhece a esperança, o futuro, por estar afogada no passado. É Tristeza que mata, que corrói, que faz adoecer. Como exemplo, atente-se às tristezas próprias do mundo da aparência: a anorexia, a bulimia, sofrimento de um corpo que morre para parecer belo. Ou a tristeza do consumo: esse mal-estar diabólico que leva do nada a lugar nenhum. A tristeza da guerra, da destruição que faz morrer a palavra e perpetua o ódio.

A tristeza segundo Deus, porém, produz mudança, movimento, superação, transformação, produz vida. É tristeza que não patina nas culpas, mas avança na responsabilidade. Tristeza de parturiente, que traz a esperança e o futuro no ventre. É tristeza que gera a sagrada ira, a santa indignação, o grito, a libertação. Sem a participação na tristeza divina, o domingo da ressurreição não passa de oba-oba. Que as quaresmeiras e os ipês roxos, também próprios do tempo quaresmal, nos convidem a participar da tristeza segundo Deus, aquela que verdadeiramente nos conduz à mudança, ao arrependimento, à transformação.

Ser contra o terrorismo é ser a favor do Islã.

islamophobia Ser contra o terrorismo é ser a favor do Islã. Não deveria parecer contraditório:  se você é contra o terrorismo e está a favor da liberdade, você deve ser a favor do Islã. O que fomenta a violência não é o Alcorão mas a intolerância travestida de superioridade. Pense nisso quando for disseminar frases de desconfiança sobre os seguidores de Maomé.

Já postei dois textos sobre os acontecimentos recentes na França. O primeiro, em um tom crítico, recebeu mais de 120 curtidas. O outro post continha uma reflexão mais benigna e recebeu apenas duas.

Li trechos do Alcorão quando cursei disciplinas sobre o Islã em uma graduação e depois numa pós. Não encontrei nada de diferente na essência dessa religião capaz de justificar a barbárie que seus extremistas cometem. Cá entre nós, se fosse por obediência ao profeta, em alguns textos do Antigo Testamento da Bíblia cristã, muitos dos quais extraídos da Torá judaica, é o próprio Deus que manda que se extermine  os seus inimigos. E no entanto, a boa hermenêutica já não nos faz querer sair por aí assassinando ninguém.

Esta semana o Charlie passará de 60.000 tiragens para nada menos que 3.000.000 de impressões trazendo Maomé na Capa em uma edição histórica. A capa falará em perdão. Por outro lado, um amigo brasileiro residente na Europa, me afirmou que  existem por lá fortes rumores de que o atentado foi uma farsa na tentativa de promover o endurecimento da entrada de estrangeiros ali, sobretudo os de origem árabe.

Diante disso é tanto melhor que todos queiramos defender a liberdade do Charlie, mesmo os que como eu não concordam com a linha editorial do jornal. Todavia volto a lembrá-los que se o Charlie tem a liberdade de dizer, o Islã também tem sua liberdade em ser. Esta afirmação incomoda traz luz à uma questão subjacente ao tema: Há limites à liberdade de expressão? Sim, tanto quanto há limites para seguidores do Islã, para os grafiteiros amantes de sua arte ou para um casal de nudistas.

Outrora a França reemplacou a importância do conceito de liberdade em um  mundo emergente. Mas o fez na companhia de dois outros conceitos: igualdade e fraternidade. No meu modo de pensar, sem estes dois últimos a liberdade se torna desculpa sorrateira para qualquer tipo de ataque.

O Charlie, o Islã, Leonardo Boff e a banalidade do mal.

charlie 2 O Charlie, o Islã, Leonardo Boff e a banalidade do mal.Dias atrás dei minha opinião no blog sobre o trabalho dos chargistas assassinados na redação do Charlie Hebdo. Sorrateiramente, fui duramente criticado por algumas pessoas ditas defensoras da liberdade de expressão. Algo que me pareceu contraditório, para dizer o mínimo.

Talvez tenha me faltado, para ser melhor compreendido, apelar para uma frase chavão do tipo: Hei Charlie, “não concordo com o que você diz, mas sempre (ou seria talvez) defenderei o seu direito de dize-lo”. De qualquer maneira, não é tarde para admiti-lo.

Isto porque acima de qualquer discordância com o humor satírico do Charlie está meu repúdio à violência, esta infelizmente mais enraizada que nossa compreensão do que seja liberdade e com consequências muito piores que o ódio a qualquer charge.

Leonardo Boff foi provavelmente feliz ao invocar Hannah Arendt para assim inspirar uma análise um pouco mais aprofundada sobre o tema. Certamente não terá agradado a todos. Em seu artigo Para se entender o terrismo contra o Charlie Hebbo de Paris (sic), Boff faz referência ao livro da pensadora judia Arendt, intitulado Eichmann em Jerusalém .

A obra surgiu na sequência do julgamento de Adolf Eichmann acusado pelos serviços prestados ao horror nazista. Diante do julgamento do monstro que disse apenas cumprir ordens, Arendt  constatou como juízos morais podem ser suprimidos pelo comportamento humano, evidenciando o que ela chamou de a banalidade do mal.

Ao citar Arendt, Leonardo Boff foca no espírito de violência que fomenta ataques, mortes, torturas e extremismos tanto por parte dos fundamentalistas islâmicos como nos inúmeros conflitos que pipocam entre os seres humanos.

Boff frisa ainda a ideia de um espírito vingativo que moveu o ataque aos chargistas e que agora é o mesmo que gera (ou seria renova?) uma nova onda de ódio e repúdio ao Islã. Denuncia assim uma espiral de violência interminável e que faz vítimas sem conta, dentre os quais muitos inocentes. Uma onda de mal que não começou nem com charges e nem com preces em direção à Meca, mas que ocupa as mentes e se espalha, seja pela ponta de um lápis que pela ponta de uma bala.

Não sou Charlie, mas em nome dele, mais que nunca, também clamo pela paz.

O Casamento e o “amor na escola”.

amor na escola O Casamento e o amor na escola.

Publico um texto de autoria de Cris Guerra. Bom em quase tudo, só tive a ousadia de acrescentar a palavra Casamento ao título. Afinal, formas de amar são muitas. Talvez aquela que sustenta o Casamento seja a mais complexa delas.

Duas da madrugada. O casal que discute no andar de baixo está tentando aprender. Eles pensavam que era só vestir branco, caprichar na decoração e fazer os convites chegar a tempo. Mas não. Na escola, até logaritmo nos foi ensinado. Decoramos a tabela periódica. Nos empurraram química orgânica. Mas nada nos foi dito sobre o amor. Crescemos acreditando que o amor é um golpe de sorte. Algo que surge naturalmente. Quem tem o privilégio de encontrar não precisa fazer nada: o amor simplesmente será. E, enquanto nos livrinhos os príncipes acordam princesas para viverem felizes para sempre, nós seguimos dormindo, sonhando com o impossível.

Com as mais altas expectativas, saímos buscando sapos nas prateleiras. Em meio a tantos produtos, nos confundimos com eles. Comida para nos matar a fome, roupa para nos vestir, gente para nos aplacar a solidão. Casar é prova de competência: nota 10 em investimento.

Na lógica capitalista, o amor se vai junto com a embalagem. Consumidores do novo, aguardamos ansiosos pelo próximo lançamento. As promessas são cada vez mais atraentes. Amores utilitários, perfeitos para exibir. Excelente custo-benefício, atendem a todas as nossas necessidades físicas, estéticas, financeiras, sexuais. Enxergamos no outro um espelho dos nossos desejos, até que a imagem se desfaz e resta apenas o outro – que pena, ele não é como a gente sonhava.

Se o amor é a fuga para esse sentimento de solidão que nasce com a gente, o “consumo” do amor reafirma o abandono. Amores que não se tocam, não se misturam nem se entregam, etiquetas adesivas que permanecem na superfície. Nos corredores dos supermercados, egoísmos a dois fazem as compras do mês. Um empurra o carrinho, o outro paga. Amar é pouco. É preciso inteligência, cuidado, respeito

Amor pede o abandono de si, de vez em quando. Pede responsabilidade. Quanto amamos é menos importante que como amamos. O amor da mãe pelo filho que nasce não é automático: será preciso adotá-lo e entender que não, ele não trará nada em troca. O marido que quer a separação usa o filho como arma – ou escudo. Faltou aprender que pessoas não são coisas. Nem nós, nem os outros.

Vamos exercitando, embora nem sempre em tempo, nas escolas informais da paixão. Os parceiros são nossos professores. Amores que acumulamos, transformados em ódio, desprezo ou amizade, sempre podem ser lição. O amor com que amei o primeiro permanece em mim, mais forte para o último. É preciso colocar o amor na escola. Humildemente, aprender. É sempre um novo idioma, linguagem cheia de armadilhas. Há que treinar a pronúncia e se deixar levar pelos sons de outro país. Amar é uma arte, como é uma arte viver. A paixão é o projeto da casa.

O resto é tijolo a tijolo. O amor não é para amadores.

Cris Guerra – extraído da revista “Veja BH”, edição de 24/09/2014

Amor, canino amor.

mel Amor, canino amor.

Desisti de tentar entender qual é a dos cachorros e mais especificamente qual é a dos meus. Digo dos meus assim meio sem jeito porque habitamos o mesmo espaço: um macho da raça Akita, uma fêmea daschhund (que  erroneamente é tida como uma basset), além de outros familiares, estes sim dos meus e não dos cães, que definitivamente são aqueles que  pagam a ração dos peludos (Logo não são verdadeiramente meus os dois bichos) e, evidente, eu-mesmo-da-Silva-Aqui.

O clima não podia ser melhor, mais propenso à felicidade. O percentual de aprontações, entenda-se um xixi em lugar impróprio, é mínimo. No mais são olhares, cabecinhas inclinadas, vigílias, sossegos, patas frenéticas, pirações por um naco de biscoito canino, cambalhotas, me dá um pedaço, lambidas… uma lista extensa de demonstrações desiguais de afeto e de cuidado: da parte deles, o tempo todo; da nossa, apenas quando sobra o tempo ou quando certa carência aperta o peito. Quem tem um cão sabe o que significa dizer que eles são os melhores amigos do homem.

Meu dilema começa justamente por esta afirmação. Que estranha coisa é esta de animais assim tão companheiros, tão carinhosos, tão protetores, tão devotos?

Meu lado razão me sussurra as palavras: 1) instinto; 2) tentativa de garantir comida,  ou seja, instinto; 3) necessidade de pertença a uma matilha, ou seja, instinto; e por ai vai.  In-sis-to, ins-tin-to.

Minha sensibilidade sugere outra coisa: um quê de bondade e de afeto percorre as entranhas por debaixo de seus cobertores de pele coberta de pelos. Será amor?  Chego a insanidade de imaginar de que na outra vida, isto é no lado de lá, no avesso desta em que vivemos – se é justo que teremos à nossa espera “Um novo céu e uma nova terra” – então, neste paraíso da fé dos que acreditam em Jesus, nos surpreenderemos com o abano do rabo de nossos cães de estimação icon smile Amor, canino amor.

Atire a primeira pedra quem não compreende o que, a bem da verdade, não carece de muita compreensão. Estes seres adoráveis confundem tanto a nossa razão, que existem pessoas que chegam ao exagero de enxergá-los, eu digo os cães, como gente como a gente (considero igualmente feio ver gente que trata cachorro feito um cão!). Ao que eu digo:  gente como a gente, não! Um cão é o que é por natureza e os humanos, por natureza, podem minimamente escolher como desejam ser, podendo até, por que não, aprender dos cães lições de companheirismo.

Spock Amor, canino amor.

Quem poderá nos socorrer? O dia em que estaremos completamente indefesos.

caos Quem poderá nos socorrer? O dia em que estaremos completamente indefesos.

Haverá um dia em que todos estarão completamente indefesos e olharão à própria volta incrédulos. Nesse dia de nada adiantará gritar por socorro já que não haverá nem mais homem ou mulher, jovem ou idoso, criança ou adulto que se sinta a vontade em assumir o papel de um simples herói. O menino olhará para sua mãe na tentativa de conseguir consolo e todavia, quando este dia chegar não haverá, repito, não haverá a menor esperança. Nem o guarda da esquina, nem o padre ou o pastor, nem mesmo o homem engajado na luta pelos direitos humanos serão mais a garantia, o porto seguro de alguém.

Direitos? Quem viver este dia não terá nunca certeza alguma de ter um direito sequer e, caso aconteça justiça para uma mínima situação, haverá um preço a se pagar por ela porque, neste dia, receber justiça será como comprar um bem desconhecendo o prazo de validade do que foi adquirido.

Enquanto ainda não é futuro, este mesmo onde não haverá mais pessoa, lugar, instituição ou refúgio, nada mais em que se possa confiar, permanecemos inocentes no presente que antecede e prepara os terríveis dias vindouros. No hoje, assistimos à passividade, à impunidade e a corrupção guiando nossos passos. E nos perguntamos: vale realmente a pena ser limpo, vale mesmo o esforço em ser honesto?

Há uma certa lisura intelectual que cede paulatinamente o espaço para os jogos midiáticos, jogos de poder.  Já não cremos que a justiça seja feita responsabilizando os grandes, ou ao menos nem temos mais tanta certeza disso. Vemos atônitos que o agir dos grandes vai nos deixando um legado, por bons professores que são. No hoje, comemoramos a honestidade de um ou outro cidadão, enquanto vamos nos alienando frente a perversidade de tantos outros. Nem sabemos mais se todas as leis devem ser seguidas ou se a placa de 40Km/h está naquele trecho da estrada por alguma boa razão. Nos questionamos se não é mesmo legal comprar sem Nota ou se não está mesmo tudo bem importar coisas do país que escraviza os seus.

No hoje, confiaremos sem lutar em um sistema que está deveras debilitado. E aí, quando a seiva da virtude que ainda nos resta acabar?  O policial poderá se negar a bancar o mocinho sem a menor cerimônia, mesmo sendo pago para isto. O médico lhe induzirá a gastar mais do que você precisa e lhe recomendará passar por procedimentos que sabidamente não lhe trarão senão problemas maiores. O aluno levantará a mão para o tutor e será apoiado por seus pais. Nem mesmo a mãe, será capaz de dizer ao filho palavras que o convençam de que há certas companhias para se evitar e que há ainda muitas outras coisas que sequer deveriam ser provadas por ele. Na falta de grandes exemplos e na extinção de santos e heróis será tudo em vão. Acredite: você ligará para reclamar sobre uma compra mal sucedida e, do outro lado da linha, alguém te dirá “não podemos fazer nada. Obrigado pela ligação.”

Parece que não está longe o dia em que os Tribunais condenarão mas a pena não será mais aplicada. Nem saberemos mais quem é o mocinho ou bandido e, portanto, a quem iremos recorrer? No dia em que a Ética se extinguir de nosso meio, não restará pedra sobre pedra. A culpa terá sido dos grandes, você me diz. Sim, mas os grandes, somos nós.

caos Quem poderá nos socorrer? O dia em que estaremos completamente indefesos.

Nós e eles. Uma reflexão sobre a LIBRAS.

maos falam Nós e eles. Uma reflexão sobre a LIBRAS.

Inicio a leitura de mais uma unidade sobre a Linguagem Brasileira de Sinais. Retomo alguns pontos interessantes, tendo ainda em mente as respostas dadas por um jovem, ouvinte, à um questionário que apliquei sobre a linguagem dos surdos. Apesar do relato dele sobre toda a curiosidade atiçada por uma escola que se preocupou em revelar aos seus alunos, ouvintes, um pouco mais sobre o modo como algumas outras pessoas se expressam no mundo, o que o entrevistado me disse beirava o que eu até bem pouco tempo sabia também: quase nada a respeito.

Nós, ouvintes, sabemos que existe um grupo com linguagem própria. Possivelmente desconhecemos como esta linguagem surgiu, quais são suas especificidades e, o que torna tudo ainda mais distante, nem sabemos como adentrar este mundo. O mundo deles não é necessariamente o mundo dos surdos, mas também dos ouvintes que não só conhecem a LIBRAS, ou outras linguagens de acordo com o país em que se encontram ( a linguagem de sinais não é universal), mas que conhecem igualmente as dificuldades que a barreira da linguagem podem impor.

Eles”, por outro lado, corresponde então a um grupo minoritário formado por um educador atendo que abraçou a causa, um pai, uma mãe ou um outro familiar amoroso que buscou aprender LIBRAS para que a comunicação em casa fosse a melhor possível e para que a criança surda se estimulasse ainda mais a aprender os sinais, ou um outro profissional capacitado e claro, os surdos que se capacitaram para a utilização desta linguagem.

Nós, os não conhecedores desta forma de expressão, não enxergamos as barreiras, ou talvez as conheçamos apenas de modo tímido. Barreiras transponíveis, desde que aja esforço, educação e interesse. Barreiras que, quando descortinadas, nos colocam em contato com outros iguais: que pensam, que contam piadas, que sabem coisas que não sabemos e que são capazes de ensinar e aprender, de amar e de receber amor. Eles podem não escutar nossa fala, mas estão longe de serem incapazes de uma comunicação entre iguais. Salvo as diferenças, na essência, nós e eles, formamos um conjunto único de pessoas, com uma infinitude de novas possibilidades.

Ps: Este breve texto foi elaborado como tarefa de um curso de complementação pedagógica que estou prestes a finalizar.  Em tal curso, uma das disciplinas foi justamente a Linguagem Brasileira de Sinais.  Separei ainda alguns mitos que acho bacana esclarecer aqui:

Mito 1:  A língua de sinais seria uma mistura de pantomima e gesticulação concreta, incapaz de expressar conceitos abstratos.

Tal concepção declara que os sinais não são símbolos arbitrários como as palavras, mas carregam uma relação icônica ou representacional de seus referentes. No entanto, vários estudos concluíram que as línguas de sinais expressam conceitos abstratos. Pode-se discutir sobre política, economia, matemática, física, psicologia em uma língua de sinais, respeitando-se as diferenças culturais que determinam a forma de as línguas expressarem quaisquer conceitos.
MITO 2:  Haveria uma única e universal língua de sinais usada por todas as pessoas surdas.
Essa concepção ainda faz parte do senso comum. As pessoas normalmente perguntam se as línguas de sinais não são universais. Cada país apresenta sua respectiva língua de sinais. A língua de sinais americana é diferente da língua de sinais brasileira, assim como estas diferem da língua de sinais britânica, da língua de sinais francesa, e assim por diante.
MITO 3:  Haveria uma falha na organização gramatical da língua de sinais, que seria derivada das línguas de sinais, sendo um pidgin sem estrutura própria, subordinado e inferior às línguas orais.
 Em relação a essa concepção, pode-se comprovar que as línguas de sinais são completamente independentes das línguas faladas nos países em que são produzidas. Um exemplo disso são as diferenças entre as línguas de sinais brasileira e portuguesa, apesar dos respectivos países em que são usadas pelas comunidades surdas falarem a língua portuguesa. Assim sendo, é um erro pensar que as línguas de sinais são subordinadas às línguas faladas.
MITO 4:  A língua de sinais seria um sistema de comunicação superficial, com conteúdo restrito, sendo estética, expressiva e linguisticamente inferior ao sistema de comunicação oral.
A alegação de empobrecimento lexical nas línguas de sinais surgiu a partir de uma situação sociolinguística marcada pela proibição e intolerância em relação aos sinais na sociedade e, em especial, na educação. Entretanto, sabe-se que tais línguas desenvolvem itens lexicais apropriados a situações em que são usados. À medida em que as línguas de sinais garantem maior aceitação, especialmente em círculos escolares, registra-se aumento no vocabulário denotando referentes técnicos.
MITO 5: As línguas de sinais derivariam da comunicação gestual espontânea dos ouvintes.
A ideia de que as línguas de sinais não são línguas, mas sim apenas “gestos” que se originam na comunicação gestual espontânea, e portanto, universal, inferior e limitada, advém de longa data, quando acreditava-se que a linguagem estava associada à capacidade do ser humano de “falar”. Essa concepção histórica perpassou os preceitos religiosos e as questões político-sociais. As igrejas ensinavam os surdos a falarem para que esses confessassem sua fé., caso contrário, estariam fadados à queimar no inferno. Pelo contrário, obrigou-se o uso da fala, mesmo sendo essa bastante limitada, não produtiva e, na maioria das vezes, sem significado para o surdo.
MITO 6: As línguas de sinais, por serem organizadas espacialmente, estariam representadas no hemisfério direito do cérebro, uma vez que esse hemisfério é responsável pelo processamento de informação espacial, enquanto que o esquerdo, pela linguagem.
 Bellugi e Klima (1990) apresentam resultados de pesquisas com surdos co m lesões nos hemisférios esquerdo e direito do cérebro. As pesquisas mostraram que aqueles com lesão no hemisfério direito tinham condições de processar todas as informações linguísticas das línguas de sinais. Por outro lado, os surdos com lesão no hemisfério esquerdo tinham condições de processar as informações espaciais não-linguísticas, mas não conseguiam lidar com as informações linguísticas. Portanto, tais estudos indicaram que as línguas de sinais são processadas no hemisfério esquerdo, assim como quaisquer outras línguas. Esse estudo comprova que a linguagem humana independe da modalidade das línguas.

POR: Ronice Muller de Quadros e Lodenir Becker Karnopp

Novos amigos, mas somente até a página seguinte?

divergências Novos amigos, mas somente até a página seguinte?Sei lá se acontece com frequência: você conhece alguém, papo bacana, reto, afinidades.  Um cumprimento no ponto de ônibus, um cafezinho no intervalo da tarde ou uma esbarrada ligeiramente orquestrada pelo destino… logo de cara a situação se esclarece: pelos mais variados motivos a palavra romance não vem ao caso e, em breve, dentro de um prazo que vai durar entre semanas, alguns meses ou mais de um ano, você encontrou e se tornou um amigo de alguém.

Não me refiro à simples percepção de estar em companhia de gente simpática ou de alguém agradável apenas. As marcas da amizade são muito mais que isso. Ontem mesmo recebi um e-mail (o usual seria uma mensagem de Facebook, mas a remetente do tal e-mail é daquelas que curte até escrever cartas), onde se lia:

“Essa tal de amizade pra mim é raiz
Que deixa marcas no solo
É a beleza do colo, do ombro e do sim”

Sou daqueles que dá muito valor à amizade, embora quase nunca expresse isso aos meus amigos. Pareço distante, intransponível, incomunicável. “Sumido” é provavelmente uma palavra que resume. Talvez pelo fato de que fui criado dentro do mantra materno que me dizia “o verdadeiro amigo é aquele que aparece e desaparece na hora certa”.  Enfim, não sou de ligar, de mandar recado, de perguntar por texto se está tudo bem. Mas gosto da mágica que ocorre quando encontro um verdadeiro amigo, uma semana, um mês ou anos após nosso último encontro e tudo transcorre como se não houvesse nunca ocorrido alguma separação. Amigos novos são sempre bem-vindos: à minha casa, aos meus programas, aos círculos dos meus “amigos de sempre” e ao círculo ainda mais restrito dos “amigos para sempre”, às minhas redes sociais. Amigo é coisa rara, encontrar um é como encontrar um tesouro e por isso me empolgo muito quando uma pessoa adentra este espaço seleto que é meu coração.

Ocorre porém que eu sou quem sou: sincero, genioso, insistente… há coisas que para mim são impossíveis! Omitir minhas opiniões sobre assuntos políticos, esconder qual o meu time de futebol favorito, assumir minhas convicções éticas, negligenciar minhas opiniões sobre uma nefasta música ruim… simplesmente não dá. É nessas horas que muitas vezes o amigo promissor acaba por se distanciar. É que ele ou ela confundiram uma posição diferente sobre este ou aquele assunto com  a tal incompatibilidade de gênios, algo que (pense bem) não resistiria nem ao primeiro café tomado juntos.  Talvez não tenham lido no manual da vida que se uma pequena chama de amizade já se acendeu, deve ser de interesse mútuo mantê-la acessa. Ou se esqueceram do que Saint Exupery lembrou à raposa: aquilo a que cativamos passa ser de nossa eterna responsabilidade. (juntar o tema da amizade com um trecho de O Pequeno Príncipe, quem nunca? rsrsrs) 

As vezes, confesso, me incomodo apenas. Outras, tento deixar claro que gosto de conversar com quem pensa diferente, com quem me exige argumentos, com quem me faz querer “brigar”, isto é, sair de minha zona de conforto e minhas “convicções”. Depois penso que se tiver de ser, será. No jogo das diferenças a vida realiza suas seleções naturais e, mesmo assim, intenso que sou, sofro um cadinho na mesma proporção das boas novas lembranças. Mas enfim, aos velhos amigos, os de perto e os de longe, a minha gratidão: gente que sabe exigir o melhor de mim.  E se acaso surgir a pergunta sobre o meu sumiço, lembre-se que você, mais que ninguém, é que conhece este meu jeito de ser.

O “Top10″ do Papa Francisco sobre a Felicidade.

papa2 O Top10 do Papa Francisco sobre a Felicidade.

Papa Francisco concedeu uma entrevista à revista argentina Viva, publicada no dia 27 de julho, em que deixou para os leitores algumas dicas preciosas para ajudar na busca da felicidade. Eis os 10 conselhos do Papa:

1) Viver e deixar viver, primeiro passo para a felicidade
“Aqui os romanos têm um ditado e podemos levá-lo em consideração para explicar a fórmula que diz: ‘Vá em frente e deixe as pessoas irem junto’.” Viva e deixe viver é o primeiro passo da paz e da felicidade.

2) Doar-se aos outros para não deixar o coração dormindo
“Se alguém fica estagnado, corre o risco de ser egoísta. E água parada é a primeira a ser corrompida.”

3) Mover-se com humildade, com benevolência entre as pessoas e as situações
O Papa usa o termo “remansadamente”, de um clássico da literatura argentina. “No [romance] ‘Dom Segundo Sombra’ há uma coisa muito linda, de alguém que relê a sua vida. Diz que em jovem era uma corrente rochosa que levava tudo à frente; quando adulto era um rio que andava para a frente e que na velhice se sentia em movimento, mas remansado. Eu utilizaria esta imagem do poeta e romancista Ricardo Guiraldes, este último adjetivo, remansado. A capacidade de se mover com benevolência e humildade, o remanso da vida. Os anciãos têm essa sabedoria, são a memória de um povo. E um povo que não se importa com os mais velhos não tem futuro.”

4) Preservar o tempo livre como uma sadia cultura do ócio
“O consumismo levou-nos a essa ansiedade de perder a sã cultura do ócio, desfrutar a leitura, a arte e as brincadeiras com as crianças. Agora confesso pouco, mas em Buenos Aires confessava muito e quando via uma mãe jovem perguntava: Quantos filhos tens? Brincas com os teus filhos? E era uma pergunta que não se esperava, mas eu dizia que brincar com as crianças é a chave, é uma cultura sã. É difícil, os pais vão trabalhar e voltam às vezes quando os filhos já dormem. É difícil, mas há que fazê-lo”.

5) O domingo é para a família
“Um outro dia, em Campobasso (Itália), fui a uma reunião entre o mundo universitário e mundo trabalhador, todos reclamavam que o domingo não era para trabalhar. O domingo é para a família”.

6) Ajudar de forma criativa os jovens a conseguir um emprego digno
“Temos de ser criativos com este desafio. Se faltam oportunidades, caem na droga. E é muito elevado o índice de suicídios entre os jovens sem trabalho. Outro dia li, mas não me fio porque não é um dado científico, que havia 75 milhões de jovens com menos 25 anos desempregados. Não basta dar-lhes comer, há que inventar cursos de um ano de canalizador, electricista, costureiro. A dignidade de levar o pão para casa”.

7) Cuidar da natureza, amar a criação
“Há que cuidar da criação e não o estamos fazendo isso. É um dos maiores desafios que temos.”

8) Esquecer-se rapidamente do negativo que afeta a vida
“A necessidade de falar mal de alguém indica uma baixa auto-estima. É como dizer ‘sinto-me tão em baixo que em vez de subir baixo o outro’. Esquecer-se rapidamente do negativo é muito mais saudável”.

9) Respeitar o pensamento dos outros
“Podemos inquietar o outro com o testemunho para que ambos progridam com essa comunicação, mas a pior coisa que se pode fazer é o proselitismo religioso, que paralisa: ‘Eu dialogo contigo para te convencer’. Não. Cada um dialoga sobre a sua identidade. A Igreja cresce por atração, não por proselitismo”.

10) Buscar a paz é um compromisso
“Vivemos uma época de muitas guerras. Na África parecem guerras tribais, mas são algo mais. A guerra destrói. E o clamor pela paz é preciso ser gritado. A paz, às vezes, dá a ideia de quietude, mas nunca é quietude, é sempre uma paz ativa”.

Fonte: Aleteia 

Política: a difícil arte de gerir desejos.

a política Política: a difícil arte de gerir desejos.

Afinal o que é mesmo política e o que devemos (e o que não devemos) esperar dela? Como já afirmou certa vez um professor de Ética, quando o assunto é política, ninguém é virgem.  Mas o senso-comum que é, por razões óbvias, a noção que boa parte de nós tem sobre o tema,  define política mal e porcamente  em dois eixos:

1) Política é Eleição/ É uma atividade eleitoral.

2) Política é gestão das coisas públicas.

Se política é só isso, o pensamento mais comum é o: “isto não tem nada haver comigo. Isto se faz em Brasília, ou, eu não sou candidato…”

Mas, se você me acompanhou nesta breve introdução, lhe asseguro: você por uma série de motivos quer ir além do senso-comum.  Então, bora refletir sobre a vida humana, pois dela depende o entendimento do conceito de política.

Na vida do homem existem coisas inexoráveis/necessárias. Respirar é uma delas. Outras coisas acontecem na base da escolha e da liberdade de decisão. Este é o lado da CONTINGÊNCIA da vida. Contingente é o que pode acontecer de um jeito, mas não necessariamente, pois pode também não acontecer, ou ainda, pode acontecer de outra maneira.

A política é o que há de CONTINGENTE na nossa natureza. É a inteligência a serviço da busca de uma convivência sempre mais aperfeiçoada. A inteligência e a vontade (de todos ou de alguns) definem coisas para além daquelas que, biologicamente, devem NECESSARIAMENTE acontecer.

Por isso política está atrelada às ESCOLHAS. Construir ou reformar? Mudar ou deixar como está? legalizar ou criminalizar? Aprovar ou proibir? A Política, a grosso modo, é sempre “isso em detrimento daquilo”. Em casa, na escola, no trabalho, estamos mergulhados em política. Dizer, portanto, que um gestor público não faz nada, é um erro grosseiro. Ele pode não estar fazendo o que gostaríamos que ele fizesse, mas certamente está escolhendo, ou seja, está fazendo algo.

ORA, para escolher é preciso atribuir valor entre as opções e se perguntar, para cada escolha: Qual o melhor caminho? Qual das opções é melhor? É parte da vida humana o fato de que para todas as coisas contingentes existem várias possibilidades, muitas delas infinitas e contraditórias e até excludentes entre si. Para cada possibilidade não existe uma só resposta e cada escolha feita, definitivamente nunca agrada a todos. A POLÍTICA É POIS, A GESTÃO DE DESEJOS CONTRADITÓRIOS.

Quando falamos da vida em sociedade, os desejos se materializam em INTERESSES. Tornam-se propostas e até ideologias inteiras. Uns agradam conservadores, outros agradam progressistas. Alguns, agradam apenas aos políticos, outros agradam aos pobres e outros  ainda, agradam aos que tem fé. Cada escolha feita agrada alguém ou um grupo, mas nunca TODOS serão agradados. Se todos querem estar no primeiro lugar, por exemplo, o desejo realizado de um, significa o descontentamento de todos os outros que ali queriam estar. E entretanto, não há problema em desejar, em ter interesses.

Mas, como se vê, os desejos esbarram em um mundo escasso. Não há no mundo maneira para que todos os desejos se realizem. Como afirma Hobbes em o Leviatã, se o homem é por natureza desejante, a cidade é por natureza uma guerra. Se a relação entre os homens é uma relação de natureza conflituosa, a política então lida com situações conflitantes.

ps: Quero escrever ainda dois ou três posts sobre o tema. Apartidários e filosóficos. A quem interessar possa rs.