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Da impaciência à síndrome do Facebook: o orgulho na raiz de toda ansiedade?

bolacha Da impaciência à síndrome do Facebook: o orgulho na raiz de toda ansiedade?

Os antigos Monges do Deserto, nos primeiros séculos da Era cristã, desenvolveram um sistema de classificação das chamadas patologias da alma, onde apresentavam oito logismói que, por sua vez, deram origem à  lista conhecida dos sete pecados capitais. Ocorre que este verdadeiro tratado, muito profundo em sua análise e nada parecido com tal listagem de sete ações imorais, contém uma rica abordagem de psicologia elaborada a quase dois milênios, mas que se demonstra bastante atualizada. (Já tratamos de uma desta definições ou logismói em um post sobre a inveja aqui no blog)

É o caso uperèphania,  cujo nome em grego pode ser traduzido por orgulho ou  soberba. Ela denota uma ignorância profunda que o sujeito tem sobre a vida e sobre a natureza das coisas. Seu efeito mais devastador é levar o indivíduo a um desligamento da realidade, fechando-o no mundo de suas representações mentais. O orgulhoso, sentindo-se por exemplo melhor que os demais, sente-se como uma pessoa apta à condição de julgar os outros, dando-lhes uma valoração. Assim, as amizades do orgulhoso tem prazo de validade: uma vez que o orgulhoso gosta de alguém, gosta para valer, pois o que lhe agrada bastante é a imagem idealizada que ele normalmente faz de seus afetos. Assim, se alguém passou no primeiro crivo do orgulhoso, é comum que assuma o posto de o Amigo ( com A maíusculo. O mesmo vale para O Parceiro, ou A Paquera…) aquele ou aquela por quem vale a pena ceder um pouco do próprio tempo e dividir momentos. Ocorre que ninguém é bom o tempo todo, nem em tudo que faz. De um lado, o orgulhoso, vendo que o Amigo em questão não corresponde mais às suas expectativas, passa a testar-lhe a amizade por meio de uma competição, quase sempre velada sob a forma de desafios ou outras formas de implicância, buscando assim uma auto-promoção sobre as deficiências do amigo-agora-nem-tão-legal-assim… Por outro lado, como é difícil estar o tempo todo com a estima e a confiança em alta, o(s) amigo(s) sofrem e sentem-se humilhados com esta autoafirmação do orgulhoso e se afastam. Eis um dos motivos pelos quais  o orgulho é um veneno que faz mal tanto para o soberbo como para quem o cerca.

Mas o que o orgulhoso gostaria, se ele pudesse, seria dizer para o mundo, para o tempo e para as coisas que ele sabe como elas devem ser. Por se achar um ser incrivelmente bom, o Cara(!), como a famigerada última bolacha do pacote,  um soberbo é sempre um impaciente. Afinal, o tempo não corre como ele determinou em sua mente, nem as pessoas funcionam no seu ritmo  e, por isso, ele sofre de raiva (pois “nada está se comportando como EU quero que se comportem!”) e também de ansiedade.  Para entender isso, basta concorda com a tese defendida por muitos pensadores contemporâneos de que “a ansiedade é excesso de futuro em nossas mentes”. Ora, quem controla todas as variáveis que nortearão o próprio futuro? Absolutamente ninguém! Mesmo assim, o orgulho sofre porque intui que as coisas parecem que não iram acontecer como ele desejaria. (Leia mais a respeito neste post aqui óh)

Ninguém deve se considerar melhor que os outros pois, a bem da verdade, somos criaturas frágeis e cercadas de imperfeições. A vida, por melhor que possa ser, revela suas mazelas para todos e, como já afirmou Luiz Felipe Pondé, cada um se vira como pode diante dos acidentes e incidentes de percusso que nos acometem. Entretanto, por se achar alguém realmente especial em relação aos demais, pouca coisa nesta vida agrada ao orgulhoso. Uma exceção seria tudo aquilo que produz muita adrenalina, promovendo uma sensação de vazio preenchido e de bem-estar. Por isso o orgulhoso gosta tanto de aventurar-se e de correr um certo perigo. Estamos falando aqui de um tipo de prazer que é arriscado e que pode custar muito caro… O problema não está na radicalidade das atividades mas no grau de prudência, paciência, contentamento, espera e discernimento que separam o aventureiro do patológico.

Os monges mencionam ainda que em decorrência da uperèphania, o orgulhoso reage como um ferino diante de um confronto. Em outras palavras, além de impaciente e ansioso, o orgulhoso pode ser explosivo. Se engana, contudo, quem pensa que os soberbos em questão são apenas os indivíduos que se sentem os melhores. No fundo, o soberbo é o cara que apenas se sente: se sente o melhor, ou MAIS perseguido, ou o MAIS azarado, ou o MAIS ignorado dos seres e por ai se vai uma infinidade de tipos… (Quem nunca ouviu alguém cujo bordão seja algo como: “tudo só acontece comigo!” ou “Nada na minha vida dá certo!”). Para eles as ferramentas sociais são uma extensão danosa da própria patologia. Me explico: uma vez que o orgulhoso costuma se achar o centro do universo, seus esforços e sua lista de preocupações diárias se estendem às opiniões de TODOS os seus contatos, que certamente não perdem (ao menos é o que ele imagina) nenhum detalhe de sua pobre ou rica vida. Muitas vezes um mega-esforço é desprendido para provar aos outros o quão boa e especial é a vida que ele leva. A bem da verdade, o orgulhoso desfila para um público sempre mais restrito sua capa de super-herói, sem se dar conta de todos os buracos que ela contém.

Na atualidade a proliferação das síndromes desculpam muitos de nossos comportamentos menos admiráveis… Se impaciência ou ansiedade são em todos os casos uma síndrome, o que se espera que é o medicamento e a terapia correta possam trata-las. Todavia, ressalto a pergunta feita por Ivan Leloup, profundo conhecedor da sabedoria dos Monges do Deserto: será que as doenças mentais não estariam enraizadas na afirmação do ego, em detrimento do reconhecimento da verdade sobre si mesmo? Será que a busca pela virtude da humildade (de nos lembra que sosmos humus, barro, quase nada) e do auto-conhecimento não são remédios para vários dos dramas do soberbo pós-moderno?

 

 

 

 

 

Gente que sente uma “tristeza de Natal”.

FELIZ%2B%2528TRISTE%2529%2BNATAL%2521 Gente que sente uma tristeza de Natal.

Há quem sonhe com o amor e há quem sofra com o amor. O mesmo vale para a ocasião do Natal. Tem gente que sente nesta ocasião uma tristeza de fundo, um sentimento de melancolia que chega a pesar mais que a sacola dos presentes. Motivos? Feliz daqueles que sabem os porquês da própria infelicidade.  Ouso apenas compartilhar alguns deles na esperança de que você, que se identifica com algum dos motivos listados abaixo, perceba que não está sozinho nesta: a bem da verdade, o Natal é triste é para muita gente.

Tem gente que é triste porque um ente querido não recebeu o induto de Natal e vai passar mais um Natal dentro da cela. Chega a ser sarcástico, mas tem gente que causa tristeza nos outros justamente por estar fora das celas no dia de Natal. E tem políticos que mesmo condenados, sequer se preocuparão com a questão.

Tem gente que sofre com o Natal do mesmo jeito que sofre com os fins das tardes de domingo, que anunciam o fechamento de mais uma semana, numa espécie de síndrome de pânico acionada pela música do Fantástico. Talvez se esqueçam que a semana terminou no sábado, que o domingo que se vai já era o primeiro dia da semana e que a vida sem estes ciclos (como o Natal e os domingos)  seria algo dificílimo de mensurar. Imagina não contar os dias para que chegasse por exemplo as merecidas férias, ou o tempo da aposentadoria?

Tem cristão que se chateia porque o Natal hoje é Papai Noel demais e Jesus menino de menos. Eles, os cristãos, também costumam chatear os outros por cobrarem mais Jesus e menos Noel no Natal. Esquecem que para um cristão Natal é todo dia e que a melhor manjedoura é o coração de cada filho de Deus. Nada de querer Jesus no presépio alheio, Jesus quer nascer é no estábulo do coração dos seus… (e isso dá tema para um outro post..)

Tem gente que sofre porque perdeu. Perdeu um amor, perdeu dinheiro no presente do amigo secreto, perdeu a graça no colorido das luzes e bolas de Natal. Se esquecem de que o Natal é tempo de pedidos, tempo de renovação das esperanças e também tempo mais de dar do que de receber.

Tem gente que acha a família um saco. Especialmente no Natal. Não toleram a hipocrisia familiar e se contentam em não ser eles mesmos o início da mudança, os que fazem a diferença.

Meu conselho para um Natal menos triste é este:  esqueça um cadinho de si, procure fazer alguém feliz. Tem sempre alguém triste, esperando uma alegria de presente de Natal.

10 pontos de vista sobre o amor ou, o amor: de Madre Tereza à Oscar Wilde.

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Listas encantam. Fiz meu Top10 de frases que realmente aprecio. Claro, sobre o amor.

1) “Porque quem ama nunca sabe o que ama nem sabe porque ama, nem o que é amar. Amar é a eterna inocência, e a única inocência é não pensar.” Fernando Pessoa

2) “Ser profundamente amado por alguém nos dá força, amar alguém profundamente nos dá coragem.” Lao Tse

3) ” Não ame pela beleza, pois um dia ela acaba. Não ame por admiração, pois um dia você se decepciona. Ame apenas, pois o tempo nunca pode acabar com um amor sem explicação.” Madre Tereza de Calcuta

4) “Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema” (Trecho do “Poeminha amoroso” de Cora Coralina)

5)  “De sofrer e de amar, a gente não se desfaz.” João Guimarães Rosa.

6) “Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.” João Guimarães Rosa (Again)

7) “Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.” Clarice Lispector

8) “A fé não é uma questão de existência ou não existência de Deus. É acreditar que o amor sem recompensa é valioso.” Emmanuel Levinas.

9) “No amor, o que vale é amar.” Chiara Lubich

10) “As mulheres existem para que as amemos, e não para que as compreendamos.” Oscar Wilde.

 

Arrumar a “casa interior” ou sobre como a vida não me deve nada.

mente aberta Arrumar a casa interior ou sobre como a vida não me deve nada.

Por Cláudio Bernardes: Conversa de hoje com uma grande amiga. Necessidade de espantar dentro da gente os maus pensamentos, o medo das frustrações e as energias ruins. Recomendei a ela que parasse. Que tirasse um tempo ( o mais longo que conseguisse) de seu dia para meditar, se conectasse com a própria essência, com a Força que trazemos no coração. Conheço-a muito bem: disse que valeria tudo (suas músicas prediletas, suas velas, seus mantras e seus objetos de ligação com o sagrado.). E que depois ela olhasse para as tais coisas que tanto a tem incomodado e as renunciasse uma a uma. Ela de volta me disse que tem buscado restabelecer novos padrões junto aos amigos e familiares. Foi daí que a ideia (conjunta) de arrumação da “casa interior” começou a tomar forma.

Frequentemente é necessário organizar nossas relações intrapessoais ou ao menos ressignifica-las. Melhor ainda se nos auto-analisarmos em relação a nossos padrões de resposta e às nossas expectativas. Estas, aliás, nos fazem muito mal. Afinal, desejos são bem vindos, mas expectativas são uma grande armadilha. Por causa delas pensamos que aquilo que desejamos tende a acontecer. Imaginamos que os outros responderão de acordo com nossos desejos e que a vida tem grande chances de se resolver de acordo com o que desejamos. Desejar, sim, almejar também, mas expectativas são o começo de toda frustração.

Bem disse um amigo certa vez, “da vida não espero nada, ela não tem obrigações para comigo. Tudo que tenho é graça!” Volto a este mesmo amigo daqui a pouco. Afinal a casa ainda está em desordem. Um “up” na maneira como lidamos com a maior parte da pessoas corresponde a por em ordem na varanda, na sala, no máximo na cozinha. Trabalhão é organizar nossos cômodos mais reservados e isto inclui, nosso banheiro, sotão e porão. Em se tratando de “casa interior” a faxina é puxada, demora uma vida, poque nunca termina. Como na nossa casa física, tudo está sempre por ser refeito, afinal , ninguém em sã consciência limpa a casa só uma vez.

Agora volto àquele amigo. Um dia ele se queixou de um inquilino de sua casa de quem ele não gostava nem um pouco. Chamava-o por seu nome mais comum: insegurança. Disse a ele para dar um chute no traseiro daquele intruso. Ele, com sabedoria, disse que não. Preferia olhar para si, reconhecer ali aquele inquilino de nome insegurança e lhe pedir com gentileza que não atrapalhasse os planos daqueles dias, mas se contentasse em ficar sentado ali em seu canto enquanto o amigo colocava em prática um projeto de ordem pessoal. Achei mais simples a solução dele. A coisas em nós que não precisam necessariamente ser expulsas, podemos simplesmente propor a elas um acordo de cavalheiros: “fiquem à vista, mas não atrapalhem, ok?”

 

Lições da natureza sobre a meditação ou, o que as mentes inquietas precisam saber para alcançarem a contemplação.

meditation leaf Lições da natureza sobre a meditação ou, o que as mentes inquietas precisam saber para alcançarem a contemplação.

Por Cláudio Bernardes: Conta-se que um jovem foi visitar no Monte Athos um sábio de nome Serafim. Queria descobrir os segredos da verdadeira meditação  e o modo de como extrair desta prática, as energias necessárias para encarar com disposição e bom humor o cotidiano da vida.

Após muita insistência o sábio Serafim o mandou sentar-se e aprender a meditar com uma MONTANHA. Não sem sentir um pouco de raiva do sábio, o jovem ficou alguns dias a contemplar uma montanha e passou a aprender com sua solidez e firmeza. Descobriu que uma montanha não se perturba, simplesmente PERMANECE. E o jovem passou a permanecer em meditação até o dia em que um grupo de peregrinos o saudou e ele, simplesmente os ignorou.

É que o jovem estava tão envolto naquela prática que perdeu a leveza e a capacidade de olhar ao redor. Serafim, que a tudo observara, interviu. Mandou que o jovem meditasse como uma PAPOULA. Pouco a pouco, o jovem percebeu a flexibilidade e a humildade daquela flor. Ela SE DEIXA CONDUZIR pelo vento, pensou. Mais passavam-se os dias e mais ele mergulhava na contemplação daquela preciosidade que era a flor. Chegou inclusive a dizer um dia “não é a flor que nasce na montanha, é a montanha que nasce ao pé da flor…”

Aquilo já era viajar demais. O sábio Serafim, percebendo toda aquele encantamento, ordenou que o jovem fosse aprender a meditar com o OCEANO. O jovem logo aprendeu a ser como o mar que mesmo com suas agitações na superfície,  CONSERVA INTACTA A SUA PROFUNDIDADE.  Ali, cada gota de mar contém a identidade toda do mar. Cada, gota SE FAZ UM com o oceano e isso era uma grande lição.

Quando aprendeu a orar com oceano, o jovem foi instruído a orar como ABRAÃO.  Abraão era o homem a quem Deus prometera um filho – que foi chamado Isaac – e que depois concordara com o pedido do próprio Deus quanto a sacrificar este filho.  Com Abraão o jovem descobrira que NADA PERTENCE AO EU, nem mesmo Isaac, o filho da promessa.  A vida não o devia nada, era Deus o único capaz de dar e de tomar de volta. Foi neste momento, quando o jovem aprendeu a não mais chorar por suas perdas,  pelas consequências dos fatos e pelas coisas da vida que em seu coração surgiu a mais profunda das contemplações: Ver Deus, o todo poderoso, como um Abbá, isto é, como a um paizinho, que a tudo conduz. Então o jovem aprendeu a meditar e a orar como Jesus, e dizia de todo coração: Pai nosso…

(Inspirado no texto de Ives Leloup: Escritos sobre o hesicasmo – Uma tradição esquecida)

Quer você plante ou não uma árvore, ande ou não de bicicleta, só não deixe de cultivar amigos

 Quer você plante ou não uma árvore, ande ou não de bicicleta, só não deixe de cultivar amigos

A vida é um dom, um presente do Criador. Quem reconhece isso certamente colhe a cada dia uma nova inspiração e novas forças para prosseguir, mesmo que o caminho não seja o mais curto e que os obstáculos não sejam os menores. Ainda que a subida não seja nada fácil, quem admira a vida adquire aos poucos a maestria de seguir em frente, encontrando cada vez menos motivos para chorar e novos motivos para sorrir (ou ao menos só chora pelo que vale realmente a pena e ri até por coisa pouca, desde que seja coisa boa). Sabemos, claro, que em boas companhias tudo tende a se tornar mais leve e a vida, ai sim, adquire novos tons, rimas e sabores. Na companhia destes outros, até o que é dor passa mais rapidamente.

Nunca é fácil preencher o vazio que um amor partido acaba deixando, ou a solidão que nos cobre nos momentos em que nossos próprios sentimentos insistem em nos trair. Ainda mais difícil é a carga de conviver com nosso lado menos nobre, nossos pensamentos destrutivos e nossas motivações sabotadoras, sem que uma alma boa nos abra os olhos, enfim, nos recoloque nos trilhos. Há momentos em que só um anjo é capaz  de nos dar a força de se levantar, caminhar de novo e  ai voltar a ver a as coisas que realmente valem a pena. Amigos verdadeiros tem o poder de refazer em nós a sensação de tranquilidade e coragem, necessárias para enfrentar as durezas que insistem em ferir. Ao lado dos amigos a jornada de um homem passa a ser marcada por lágrimas que não serão derramadas, ou por enormes fardos nos ombros que cedem à força de um abraço sincero. Quem cultiva amigos viverá também desconhecendo a força da solidão.

Concordo, mas só um bocadinho, que amigos são a família que a gente escolhe. Um bom amigo pode ser também um bom pai, uma mãe guerreira, um irmão ou irmã que estão ali, dispostos a perder um pouco de si, de seus recursos e projetos de vida simplesmente para se ocuparem de nós. Por isso, cultive amigos, invista nas amizades sabendo dar e receber. Saiba que quando oramos pedindo que Deus nos dê proteção é dos amigos que temos que Ele gosta de se servir. Nos dias de hoje, quando vemos inúmeras mensagens sobre saúde, fitness, cuidados com o próprio corpo, dietas milagrosas e promessas de bem estar, digo que o melhor cuidado que devemos ter é com aqueles que nos amam e que amamos.  Por eles vale tudo o que é bom e nobre, até mesmo sentar-se à mesa juntos apenas para dar risadas e partilhar uma porção de gordices, um bom vinho ou um cafezinho ligeiro, mesmo que com isso ganhemos uns quilinhos a mais, o que nunca será tempo perdido.

Se eu mudar o mundo muda junto, ou, como converter dias cinzas em manhãs de alegria. (Parte I)

 Se eu mudar o mundo muda junto, ou, como converter dias cinzas em manhãs de alegria. (Parte I)

Todos os dias da vida são dias de aprendizado. Se o dia de hoje parece ser um daqueles iguais a tantos outros, preste atenção aos detalhes. E se você julga que não há nada de novo para aprender e para curtir neste dia, talvez seja a hora de limpar os óculos e buscar um olhar mais atento.

Limpar os óculos é a atitude de quem quer refinar a capacidade de enxergar as coisas, a começar por se enxergar. O autoconhecimento é o caminho por excelência para a transformação dos dias por vezes cinzentos em manhãs de alegria. Através dele deixamos de ser escravos das circunstâncias e descobrimos que muito das chateações rotineiras podem ser simplesmente transformadas em aprendizado, sem que sejamos escravizados por elas. Gosto quando alguém me partilha a verdade sobre seu estado de humor dizendo algo como: “nós brigamos porque eu estava estressado”, ao que me lembro sempre da sabedoria dos nossos avós que diziam “quando um não quer dois não brigam”…  Talvez, se o estressado estivesse em outra vibe que não a do “tocar terror”, uma briga poderia ser evitada, ficando só o aprendizado (nem que tal aprendizado fosse o de como realmente conseguimos suportar pessoas chatas sem que elas nos entristeçam em demasia, ou nos tirem a paz interior. Isso, claro, exige boa dose de verdade consigo mesmo e… muito treino.)

O ponto em questão é: quando não podemos evitar as circunstâncias desfavoráveis, as pessoas chatas, as tarefas cansativas, podemos mudar nossa postura diante destas fontes de insatisfação. Isso ocorre à medida em que cada de nós conhece seus próprios vícios de pensamento, sua forma mesquinha de julgar a vida e as armadilhas criativas da própria auto sabotagem.

Quando nos cansam certas “tristezas de estimação” e certas circunstâncias em que nos encontramos cotidianamente, mudar a forma de lidar com as coisas e com as pessoas ao seu redor é o caminho mais certeiro para promover uma transformação. Isso exige reconhecer nossa parcela de responsabilidade em cada situação e em cada acontecimento. Depois, devemos nos permitir ao menos tentar outros jeitos, outras lentes, outras formas de encarar a realidade e, procurando estar no amor,  recomeçar sempre. Afinal, como uma das belas canções de nossa MPB já afirmou, viver é como afinar um instrumento, de dentro prá fora e de fora prá dentro, a toda hora e a todo momento.

Sua vida tem trilha sonora? (Ou o “poder” de nossa playlist mental)

 Sua vida tem trilha sonora? (Ou o poder de nossa playlist mental)

Existem pessoas capazes de descrever suas vidas a partir de uma trilha sonora imaginária e eu me incluo neste grupo.Tempos atrás ganhei de uma amiga e confidente um CD com 18 canções que iam do MPB ao Rock, passando pela trilha de um game (Super Mário Bros!). Em 18 faixas, um resumo sentimental de muitos anos de amizade, altos e baixo e, enfim, de convivência.

 Há um filme estrelado por John Cusack (Alta Fidelidade) onde a trilha sonora é tão bem explorada que se tornar uma espécie de personagem do enredo. Penso que este é um poder que a música tem. Ser uma presença. De fato, existem canções que nos interpelam e dialogam conosco, arrancando de nós sentimentos profundos, desejos escondidos, vontade de abraçar alguém ou de implodir parte do mundo. Há ainda o mistério daquela canção que, tal como uma fotografia, nos remete aos momentos importantes e aos tempos das escolhas difíceis, que nos fizeram crescer, e chorar, um cadinho mais. Música é assim, toca a alma e reverbera.

O “Alta Fidelidade” foi inspirado em um livro de mesmo nome. Sua mensagem de fundo poderia ser traduzida por “diga-me o que escutas, e eu te direi quem és”. (Portanto, nossa playlist mental é matéria de autoconhecimento sim senhor!). Há um trechinho do “Alta Fidelidade “que quero destacar, pois nos convida a refletir: “O que veio primeiro? A música ou a miséria? As pessoas se preocupam com crianças brincando com armas, vendo vídeos violentos, como se a cultura da violência fosse consumi-las. Mas ninguém se preocupa se escutam milhares de canções sobre sofrimentos, rejeição, dor, miséria e perda. Eu ouvia música pop porque era infeliz? Ou era infeliz porque ouvia música pop?”

E então, “bora” selecionar a playlist que nos trará as coisas boas da vida?