O sofrimento é a sina para os românticos, para quem tem alma de artista.

sofrer O sofrimento é a sina para os românticos, para quem tem alma de artista.

Em primeiro lugar é bom logo avisar (como alias já o fez um grande pensador francês, Rosseau), romantismo é diferente de romance. Ou, como disse uma sabida amiga mineira: “namoro é namoro, romance é romance e lance é lance”! Isto deve ficar claro quando afirmo o que os românticos já sabem de cor: um bom romântico é alguém que sofre muito e pelas mais variadas coisas.

O romântico sofre por ter aguardado por anos a fio o sim de um amor não correspondido, ou o reconhecimento por um esforço empreendido, ou por não ter nunca recebido aquela tão sonhada promoção no mundo corporativo. Um verdadeiro romântico não sofre apenas por amor, sofre mais é por pura decepção.

O romântico sofre por sua falta de percepção certeira das coisas. Por não enxergar o mundo exatamente como ele é. Você sabe exatamente como é o mundo? Você precisaria de mais do que tinta preta e branca e ainda só um bocado de azul, amarelo e vermelho para pinta-lo para mim? Concorda que o mundo se divide entre dias mais ou menos cinza, algumas noites de dor e incerteza, momentos em que só a fé nos sustenta e muitas (e para algumas pessoas nem tantas) manhãs de sol?

Românticos garantem a si próprios que sabem como o mundo funciona: o mundo, para eles, é um lugar onde ao final é o bem que sempre vence, onde todos podem ser reconhecidos pelas próprias intenções e, ainda, aonde todos tem direito à felicidade. Para pintar então um quadro sobre o mundo tal como o romântico o percebe: matizes! Uma paleta repleta delas, muitas e muitas cores porque tudo é belo demais para parecer monocromático. O paraíso do romântico é já aqui e isto, claro, dura ao menos até a página 2…

Logo chegam os dias de tempestade, as grandes decepções, o tempo de dizer “como isso foi acontecer comigo(?)”. É o dia em que um sonho acaba ou que um castelo (de areia fina) dá sinais de que logo desmoronará… e, lágrimas… e, aquela sensação de culpa aliada a uma boa dose de fossa que atende pelo nome de frustração.

Talvez o que o romântico não perceba é que este é o momento exato em que sua fantasia desmorona e as coisas se apresentam apenas como realmente são. É o dia da libertação, em que as vendas de seu olhos finalmente lhe são tiradas: aquele amado, nunca amou de verdade; aquele futuro nunca fora promissor; aquele chefe jamais ousou pensar em confiar em você… tudo ali, claro e agora nu e, entretanto, o romântico não havia parado para compreender a objetividade das coisas. É que onde existem indícios de um crime, o romântico enxerga as premissas de uma linda história de felicidade.

 Todavia, o que seria do mundo se não fossem estes seres de alma de artista? Capazes de plantar palavras, colhendo poesias e de adoçar o mundo com juras de amor que seriam como rosas privadas de todos os ardilosos espinhos? O que seria da vida se no lugar do romantismo existisse apenas a objetividade e não a abstração? Será mesmo que é triste a sina do romântico, a de fazer sorrir, mesmo quando o mundo parece lhe fazer querer chorar?

Conforta saber que ao menos sempre haverá para todos, lindas manhãs de sol… será que não?