Chiara Lubich fala a cristãos e muçulmanos sobre o amor de que o mundo precisa.

O diálogo e o respeito entre pessoas de diferentes crenças religiosas me fascina. Por isso, publico um vídeo (dublado em português) onde Chiara Lubich, Fundadora do Movimento dos Focolares, contribui para a construção da fraternidade universal, falando sobre o amor, a Biblia e e o Alcorão ao contar sua história e seu sonho de construir a fraternidade universal.

Quer você plante ou não uma árvore, ande ou não de bicicleta, só não deixe de cultivar amigos

 Quer você plante ou não uma árvore, ande ou não de bicicleta, só não deixe de cultivar amigos

A vida é um dom, um presente do Criador. Quem reconhece isso certamente colhe a cada dia uma nova inspiração e novas forças para prosseguir, mesmo que o caminho não seja o mais curto e que os obstáculos não sejam os menores. Ainda que a subida não seja nada fácil, quem admira a vida adquire aos poucos a maestria de seguir em frente, encontrando cada vez menos motivos para chorar e novos motivos para sorrir (ou ao menos só chora pelo que vale realmente a pena e ri até por coisa pouca, desde que seja coisa boa). Sabemos, claro, que em boas companhias tudo tende a se tornar mais leve e a vida, ai sim, adquire novos tons, rimas e sabores. Na companhia destes outros, até o que é dor passa mais rapidamente.

Nunca é fácil preencher o vazio que um amor partido acaba deixando, ou a solidão que nos cobre nos momentos em que nossos próprios sentimentos insistem em nos trair. Ainda mais difícil é a carga de conviver com nosso lado menos nobre, nossos pensamentos destrutivos e nossas motivações sabotadoras, sem que uma alma boa nos abra os olhos, enfim, nos recoloque nos trilhos. Há momentos em que só um anjo é capaz  de nos dar a força de se levantar, caminhar de novo e  ai voltar a ver a as coisas que realmente valem a pena. Amigos verdadeiros tem o poder de refazer em nós a sensação de tranquilidade e coragem, necessárias para enfrentar as durezas que insistem em ferir. Ao lado dos amigos a jornada de um homem passa a ser marcada por lágrimas que não serão derramadas, ou por enormes fardos nos ombros que cedem à força de um abraço sincero. Quem cultiva amigos viverá também desconhecendo a força da solidão.

Concordo, mas só um bocadinho, que amigos são a família que a gente escolhe. Um bom amigo pode ser também um bom pai, uma mãe guerreira, um irmão ou irmã que estão ali, dispostos a perder um pouco de si, de seus recursos e projetos de vida simplesmente para se ocuparem de nós. Por isso, cultive amigos, invista nas amizades sabendo dar e receber. Saiba que quando oramos pedindo que Deus nos dê proteção é dos amigos que temos que Ele gosta de se servir. Nos dias de hoje, quando vemos inúmeras mensagens sobre saúde, fitness, cuidados com o próprio corpo, dietas milagrosas e promessas de bem estar, digo que o melhor cuidado que devemos ter é com aqueles que nos amam e que amamos.  Por eles vale tudo o que é bom e nobre, até mesmo sentar-se à mesa juntos apenas para dar risadas e partilhar uma porção de gordices, um bom vinho ou um cafezinho ligeiro, mesmo que com isso ganhemos uns quilinhos a mais, o que nunca será tempo perdido.

Se eu mudar o mundo muda junto, ou, como converter dias cinzas em manhãs de alegria. (Parte I)

 Se eu mudar o mundo muda junto, ou, como converter dias cinzas em manhãs de alegria. (Parte I)

Todos os dias da vida são dias de aprendizado. Se o dia de hoje parece ser um daqueles iguais a tantos outros, preste atenção aos detalhes. E se você julga que não há nada de novo para aprender e para curtir neste dia, talvez seja a hora de limpar os óculos e buscar um olhar mais atento.

Limpar os óculos é a atitude de quem quer refinar a capacidade de enxergar as coisas, a começar por se enxergar. O autoconhecimento é o caminho por excelência para a transformação dos dias por vezes cinzentos em manhãs de alegria. Através dele deixamos de ser escravos das circunstâncias e descobrimos que muito das chateações rotineiras podem ser simplesmente transformadas em aprendizado, sem que sejamos escravizados por elas. Gosto quando alguém me partilha a verdade sobre seu estado de humor dizendo algo como: “nós brigamos porque eu estava estressado”, ao que me lembro sempre da sabedoria dos nossos avós que diziam “quando um não quer dois não brigam”…  Talvez, se o estressado estivesse em outra vibe que não a do “tocar terror”, uma briga poderia ser evitada, ficando só o aprendizado (nem que tal aprendizado fosse o de como realmente conseguimos suportar pessoas chatas sem que elas nos entristeçam em demasia, ou nos tirem a paz interior. Isso, claro, exige boa dose de verdade consigo mesmo e… muito treino.)

O ponto em questão é: quando não podemos evitar as circunstâncias desfavoráveis, as pessoas chatas, as tarefas cansativas, podemos mudar nossa postura diante destas fontes de insatisfação. Isso ocorre à medida em que cada de nós conhece seus próprios vícios de pensamento, sua forma mesquinha de julgar a vida e as armadilhas criativas da própria auto sabotagem.

Quando nos cansam certas “tristezas de estimação” e certas circunstâncias em que nos encontramos cotidianamente, mudar a forma de lidar com as coisas e com as pessoas ao seu redor é o caminho mais certeiro para promover uma transformação. Isso exige reconhecer nossa parcela de responsabilidade em cada situação e em cada acontecimento. Depois, devemos nos permitir ao menos tentar outros jeitos, outras lentes, outras formas de encarar a realidade e, procurando estar no amor,  recomeçar sempre. Afinal, como uma das belas canções de nossa MPB já afirmou, viver é como afinar um instrumento, de dentro prá fora e de fora prá dentro, a toda hora e a todo momento.

Sua vida tem trilha sonora? (Ou o “poder” de nossa playlist mental)

 Sua vida tem trilha sonora? (Ou o poder de nossa playlist mental)

Existem pessoas capazes de descrever suas vidas a partir de uma trilha sonora imaginária e eu me incluo neste grupo.Tempos atrás ganhei de uma amiga e confidente um CD com 18 canções que iam do MPB ao Rock, passando pela trilha de um game (Super Mário Bros!). Em 18 faixas, um resumo sentimental de muitos anos de amizade, altos e baixo e, enfim, de convivência.

 Há um filme estrelado por John Cusack (Alta Fidelidade) onde a trilha sonora é tão bem explorada que se tornar uma espécie de personagem do enredo. Penso que este é um poder que a música tem. Ser uma presença. De fato, existem canções que nos interpelam e dialogam conosco, arrancando de nós sentimentos profundos, desejos escondidos, vontade de abraçar alguém ou de implodir parte do mundo. Há ainda o mistério daquela canção que, tal como uma fotografia, nos remete aos momentos importantes e aos tempos das escolhas difíceis, que nos fizeram crescer, e chorar, um cadinho mais. Música é assim, toca a alma e reverbera.

O “Alta Fidelidade” foi inspirado em um livro de mesmo nome. Sua mensagem de fundo poderia ser traduzida por “diga-me o que escutas, e eu te direi quem és”. (Portanto, nossa playlist mental é matéria de autoconhecimento sim senhor!). Há um trechinho do “Alta Fidelidade “que quero destacar, pois nos convida a refletir: “O que veio primeiro? A música ou a miséria? As pessoas se preocupam com crianças brincando com armas, vendo vídeos violentos, como se a cultura da violência fosse consumi-las. Mas ninguém se preocupa se escutam milhares de canções sobre sofrimentos, rejeição, dor, miséria e perda. Eu ouvia música pop porque era infeliz? Ou era infeliz porque ouvia música pop?”

E então, “bora” selecionar a playlist que nos trará as coisas boas da vida?

A Inveja fere os outros e destrói quem a possui.

 A Inveja fere os outros e destrói quem a possui.

Conhece alguém incapaz de lhe fazer um elogio, valorizar suas conquistas e se alegrar com suas vitórias? Tem a nítida impressão de que as vezes, esta pessoa, mesmo procurando demonstrar boas intenções e laços de amizade, na verdade parece curtir puxar seu tapete? Cuidado, você está convivendo com um invejoso!

A palavra inveja vem do latim invidere, que significa algo como não querer ver. Guarde isso. Costumeiramente entendemos mal o que a inveja é e isso é prejudicial pois disfarça os efeitos mais nocivos desta verdadeira patologia da alma. Quer ver só? Uma busca pela web me entregou esta pérola:

“A inveja pode ser definida como uma vontade frustrada de possuir os atributos ou qualidades de um outro ser, pois aquele que deseja tais virtudes é incapaz de alcançá-la, seja pela incompetência e limitação física, seja pela intelectual.” 

Nem sito fontes pois esta definição (falsa) é quase um consenso. Mas não é verdadeira, chegando a ser desonesta. Por quê? Porque a inveja, ou a invídia é a atitude de quem não quer enxergar que, com esforço e dedicação, também poderia alcançar os resultados, sucessos ou bens que são o objeto de sua vontade presentes na vida de outras pessoas. Um exemplo simples é o sujeito que, vendo o carro novo na garagem de seu prédio, sente-se tentado a desdenha-lo (quando não chega as vias de fato de produzir-lhe um arranhão!). Certamente, se estamos falando de um invejoso, ainda que ele não faça nada com o carro novo, procurará de alguma forma atingir o proprietário feliz, nem que seja com uma cara fechada, todas as vezes que se encontrarem no elevador. O mesmo vale para aquela “amiga” que não se alegra com o namorado gente fina que alguém conquistou. Em todos os casos, o mau humor ou as ações danosas do invejoso trazem o seguinte recado: “não quero ver que eu também posso crescer, evoluir, conquistar. Por isso, furo seu balãozinho, puxo seu tapete para que você perca esta felicidade toda e volte aqui para o marasmo de onde eu não quero sair!” (Sim, o invejoso tem a síndrome de Gabriela: “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim…”)

Fica claro como é perigoso o convívio com um invejoso. É preciso não cair em suas armadilhas e se proteger. Por outro lado, é preciso examinar se não somos nós que temos estas atitudes. A inveja é algo letal. Além de buscar espalhar mau humor e tristeza ao seu redor, o invejoso, mergulhado em sua conduta, não conseguirá progredir na vida. Ficará amargurando fracassos e criticando as pessoas ao seu redor. Nunca se dará conta de que ele também tem um lugar ao sol à sua espera. Eis aí a fonte de sua verdadeira tristeza…

Faça o bem todo dia, um gestinho só faz toda a diferença.

 Faça o bem todo dia, um gestinho só faz toda a diferença.

J. R. Tolkien, autor dos livros O Hobbit e O Senhor dos Anéis, entre outros, nos brindou com belos diálogos que se intercalam às batalhas de suas personagens. No fundo, sua obra sempre expressou a luta do bem contra o mal. Hoje, muitos autores se esforçam em criar personagens tão mocinhos quanto bandidos, e daí a expectativa nem é esperar o modo como o bonzinho ganha no final. Se espera é que os malvados, simpáticos, paguem mas só um pouquinho e os bonzinhos, “sem sal”, e que depois se mostram não tão bons assim, estes… ah! Deixa pra lá. Volto a Tolkien e aos seus diálogos. Em um deles, o mago Gandalf diz:  “Saruman acredita que só grandes forças podem conter o mal, mas não é o que eu penso,  acho que são pequenos detalhes, ações diárias das pessoas que mantem o mal afastado, simples ações de bondade e amor!” (O Hobbit)

Bobagem a minha pensar que todos gostam de O Hobbit e estão familiarizados com estas personagens, ou que os ame tanto quanto eu. Bobagem a nossa, se não levarmos a opinião de Gandalf a sério! Que muitos de nós gostariam de mudar o mundo, eu não duvido. Aquele desejo bom de que os conflitos e a violência dessem trégua, de que apesar dos baderneiros, o país do gigante acordado realmente conquistasse uma nação mais honesta, um Brasil menos desigual, uma redução não de 0,20 (centavos) mas de 100% da corrupção. Claro, chega a ser ingênuo e pueril. E, como somos conscientes  dessa nossa ingenuidade, logo não esperamos realmente que tudo se resolva em definitivo, ao menos não aqui no nosso maravilhoso planeta imperfeito. Então, nos contentamos (e olha, já é lucro se contentar com isso!) com a ideia de um, já clichêmundo melhor. A diferença aqui é que não se espera por uma intervenção mágica que subverta a desordem, transformando-a na mais pura harmonia. Não. No caso exposto, o que queremos é que as coisas mudem a cada dia um pouquinho, que cada dia seja melhor que aquele que acaba de passar.

É claro, entendemos que as pequenas mudanças, capazes de produzir o nosso desejado mundo melhor, passam também pela nossa iniciativa própria. Nem vou dizer que é no modo nosso de estacionar de cada dia, de nos cumprimentar com um sorriso rotineiro, ou de promover em nosso banheiro aquela economia de água da torneira e, por onde passarmos, aquele esbanjamento de cordialidade e atenção, que as coisas, ao menos ao nosso redor, tendem a melhorar. Mas lembre-se do que disse o Gandalf (o ao menos dê um crédito à mensagem do autor do O Hobbit )! Os gestos de bondade e amor, “mantem o mal afastado…” e portanto, continuaremos a conviver com o mal, embora nos afastemos de um perfil de convivência do tipo “tudo junto e misturado”. Estejamos certos,  haverá ainda quem estaciona na vaga do idoso, quem esbanja a água da pia e quem economiza no humor.

Dito isso, há momentos, em que o que me resta é encontrar motivação na sabedoria de Madre Tereza de Calcutá: “Se você é um vencedor, terá alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros. Vença assim mesmo…. se você tem paz e é feliz, as pessoas podem sentir inveja. Seja Feliz assim mesmo… veja que, no final das contas, é entre você e DEUS. Nunca foi entre você e as outras pessoas.”

Pare de se queixar do que não tem e comece a criar o que quer.

desanimo Pare de se queixar do que não tem e comece a criar o que quer.

Já dizia um sábio profeta de nosso tempo, Dom Hélder Câmara: “É graça divina começar bem. Graça maior é persistir na caminhada certa. Mas a graça das graças é não desistir nunca”. Note que, para ele, começar já uma graça qualificada como divina! Aos que pensam que o recado aqui é “não desista”, deixo portanto a pergunta: mas você ao menos já começou?

Somos capazes de sonhar com uma vida diferente, tecer planos de lugares que ainda queremos conhecer, pessoas com quem desejaríamos estar, iniciamos regimes, fantasiamos a coragem de chegar no local de trabalho e surpreender a todos por estarmos com um brilho diferente nos olhos e com um ar de quem venceu a si próprio e, por não mais se auto-sabotar, descobriu finalmente como conquistar (e manter) a leveza da felicidade. Sonhamos, desejamos, queremos. A realidade entretanto, mantém seu aspecto de crueza, muitas vezes nos recordando que os “filminhos mentais” que reproduzimos e modificamos para  nós mesmos, são uma projeção fictícia, sonhos de um emprego melhor, um relacionamento melhor, uma casa mais ampla, uma vida mais digna. Quem conhece a chave para o sucesso sabe que, salvo as milagrosas exceções, é preciso sonhar coisas boas, desejar concretiza-las, planejar um ou mais modos de torna-las reais e daí (foco), suar a camisa! O grande vilão desta história não é sequer o tamanho do sonho, mas nossa alergia ao esforço. Eis então algumas frases inspiradoras para nos fazer querer começar e recomeçar a construir um mundo que tenha a cor de nossos melhores sonhos:

- O sofrimento é passageiro. Desistir é para sempre. (Lance Armstrong)

- Quem quer fazer algo encontra um meio. Quem não quer fazer nada arranja desculpas. (Provérbio árabe)

- O rio atinge seus objetivos, porque aprendeu a contornar os obstáculos. (Lao Tsé)

- Paciência e perseverança tem o efeito mágico de fazer as dificuldades desaparecerem e os obstáculos sumirem. (John Quincy Adams)

- O insucesso é apenas uma oportunidade para recomeçar de novo com mais inteligência. (Henry Ford)

- O sofrimento precisa ser superado e o único meio de superá-lo é suportando-o. (Carl Gustav Jung)

- Uma pedra intransponível para o pessimista é uma pedra de apoio para o otimista. (Eleanor Roosevelt)

- Suba o primeiro degrau da fé. Você não tem que ver toda a escadaria antes de subir o primeiro degrau. (Martin Luther King)

Por fim, se o plano “A” não deu certo, não se preocupe, o alfabeto tem mais 25 letras para você tentar.

Inspiração em cativar.

raposinha Inspiração em cativar.Estou concluindo uma mudança, o que inclui medir, montar, desencaixotar e (re)organizar. E, no meio dos meus livros que aos poucos saem das caixas e vão ganhando espaço na casa, reencontrei um amarelado exemplar de O Pequeno Príncipe. Sou réu confesso. Nunca o li por inteiro. Faltou-me a paciência e eu não sei bem quem é o tal pequeno príncipe e quais suas verdadeiras intenções, neste e em outro mundo. Mas algumas passagens do livro, conheço quase que de cor. E, como a literatura tem o poder de nos transmitir através das fábulas grandes verdades,(e é mais fácil digerir fábulas do lidar com algumas verdades “nuas e cruas”) destaco três pequenos trechos do livro, ciente que o que quero expressar está bem apresentado ali:

“Cativar algo quase sempre esquecido – disse a raposa. Significa ´criar laços´[… ] eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo […] se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieto e agitado: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… “

Saint Exupèry, cara sábio, né não?

A vida é dos outros, e minha a necessidade de intervir.

3189373232 f23c6ed014 z A vida é dos outros, e minha a necessidade de intervir.

Um erro é sempre um erro. Quando o comportamento de alguém que sequer conhecemos é  algo injusto ou ilegal, não fazer nada a respeito pode atrair a nós o adjetivo de omisso, quando não a acusação de cúmplices em um “mal-feito”. Nestes casos é correto intervir, mesmo que anonimamente, em vista do bem comum, da ordem, da tranquilidade e ou da paz. Quando porém nossa atenção recai sobre os comportamentos inadequados de pessoas com quem convivemos no dia-a-dia, a coisa certa a fazer nem sempre é clara.

Se o tal comportamento nos incomoda, chegando a ser repulsivo a nós, então o mais lógico seria expressarmos nossos sentimentos, certo? Não é tão fácil assim. A mente nestes casos inicia um verdadeiro processo de negociação, levando em conta perdas e ganhos: estamos dispostos a correr riscos de perder aquela amizade, ou aquela falsa sensação de paz (leia-se ausência de maiores problemas, pois o comportamento em questão já se apresenta como um problema) no espaço de convívio comum? Estamos abertos a, uma vez corrigindo o outro, receber como “gratidão” um feed-back negativo sobre nosso jeito de ser e de agir? Neste sentido, sabemos que nosso telhado também é de vidro e que temos limitações, então, será que o que me incomoda no outro não é um fruto “freudiano” dos nossos mecanismo de defesa?

Um bom exercício antes de tomar uma atitude em relação ao assunto em questão é prestar atenção ao que nos motiva em querer advertir os outros. Se a raiz de uma observação dirigida ao outro não for genuinamente um gesto de amor de nossa parte, ou seja, se no meio de nossas boas intenções (em falar, dizer, corrigir), existir também certa dose de egoísmo ou censura, a coisa provavelmente não terá o efeito que esperávamos e poderá acabar mal. Também é necessário nos policiar em relação aos nossos julgamentos. Nosso modo de ver o mundo,e isto inclui nossas crenças, não são mais que a nossa visão das coisas. Neste caso, a liberdade, inclusive a religiosa, é um valor a ser respeitado. É claro que podemos sim convidar a todos a compartilhar nossa visão de mundo. Não há riscos de ferir a liberdade de outrem quando se trata de um convite e não de uma imposição.

Recordo-me de ouvir a jovem da foto acima, Immaculée Ilibagiza, sobrevivente do maior genocídio que se tem notícia na história da África, dizer: “entre ser verdadeiro é ser amoroso, seja amoroso”. Ser amoroso (e não bajulador) não é a atitude de quem se omite, mas de quem sabe encontrar a hora e o modo certo de se expressar. É se perguntar se o outro está suficientemente preparado para ouvir naquele momento o que temos a lhe dizer. É criar aquela atmosfera de acolhimento e empatia, onde dizer um “sinto que isto não é legal” não pesa nem para quem fala e nem para quem escuta. Aproprio-me de uma frase normalmente atribuída ao pensador e santo católico Agostinho de Hipona: Ame [concretamente] e depois faça [fale] o que queres.

Nota: Este texto é fruto do feed-back de alguns amigos em relação ao texto anterior. Não leu? aproveita o embalo: http://sabedoriadeamar.wordpress.com/2013/10/24/ser-livre-ou-responsavel/

Ser livre ou responsável?

 Ser livre ou responsável?

Que quem ama cuida, ou deveria cuidar, isto parece que é já senso comum. Cuidar é tarefa fácil para alguns. Quem sente que nasceu com a responsabilidade em alta ou fez dela um valor, sabe que, se não toma cuidado, quer logo abraçar o mundo: se sente responsável pela pessoa que ama, pela casa, pelo cachorro (e, em tempo de invasão aos laboratórios de pesquisa, por todos os beagles do mundo), por muitos outros animais (baleias inclusas), pela natureza e, enfim, pelo mundo! Já ouvi de gente muito inteligente que, de tanto assumir os problemas dos outros, sente que as vezes lhe falta tempo para viver um pouquinho para si…

Há também quem se sente livre para não se responsabilizar. De qualquer modo, nossa responsabilidade passa pelo crivo de nossa liberdade. Eu escolho sobre o que quero ser responsável. Mas isto é ponto para mim e um problema para o mundo. Me explico: Algumas coisas tem em si um “fator ternura” e daí é fácil querer cuidar. Mas outras coisas acabam sendo deixadas à margem. Me refiro não apenas às pessoas “feias”, mas também aos animais “feios”, e aos espaços feios (inclusive aquele canto da casa que não queremos arrumar) e até aos comportamentos pessoais que há muito nos pedem: “hei, dê uma reorganizada em mim por favor!”

Gosto do que diz um rabino (Irving Bunim) na introdução de sua obra, Ética do Sinai: “Vemo-nos aceitando passivamente um princípio basicamente anglo-saxônico: ‘cuide de seus próprios assuntos.’ Ou, ‘se vir alguém fazendo algo errado, não interfira, isto não lhe diz respeito’. Nada poderia ser mais contrário à abordagem judaica… ” A este respeito, certo filósofo também judeu – o qual, gosto de lembrar, sobreviveu aos horrores da 2ª Guerra Mundial – afirma que o judaísmo entende responsabilidade como responsabilidade por aquilo que não é feito meu, ou por aquilo que nem sequer me diz respeito.

Surge em mim, em nós uma alarmante questão: Como assim? Sou OBRIGADO a ser responsável, até pelo que não é problema meu?  Onde fica então a minha liberdade se as coisas “de fora” me fazem responsáveis por elas? O fato é que as tais coisas “de fora”, isto é as coisas que não são do “meu eu comigo mesmo” nos atingem e nos governam mais do que imaginamos: paixões, encontros, simpatias, violência, assombros… Além disto, é somente na nossa participação em uma rede de relacionamentos, que a nossa liberdade se concretiza nesta ou naquela escolha específica.  Ou seja, somos donos de nós mesmos dentro de um quadro de exigências que o mundo “de fora” nos impõe. Nas palavras do tal filósofo, “não poderíamos ser livres a não ser que as responsabilidades nos dessem oportunidades para o sermos.”

Não se trata portanto de abraçar o mundo, o nome disso é megalomania, mas de contribuir com o que está ao alcance das mãos. Se o mundo dos que nos cercam, que é também o nosso mundo, for um mundo melhor, assim também o será para nós. Mãos a obra?

Para aprofundar:
BUNIM, Irving M. Ética do Sinai. 5ª Ed. São Paulo: Editora Sefer, 2012 , p. 6.
SANTE, Carmine de. Responsabilidade: o eu – para – o outro. São Paulo: Paulus, 2005.
LEVINAS, Emmanuel. Ética e Infinito. Lisboa: Edições 70, 2010.

 (Nota de  boas vindas ao blog: Este texto é a estreia de um espaço no qual quero externar temas que a muito me instigam!  São eles o amor, em todas as suas expressões, e a ética, em toda a sua significância. Todavia não me detive em explicar os significados destas duas tão poderosas palavras. Isto se dará no tempo e de modo direto, ou não!)

Textos e publicações sobre a sabedoria de amar. Resgate das palavras amor e ética, presente mais nas palavras que nas ações. Blog inspirado nos escritos e na filosofia de Emmanuel Levinas.