Política: a difícil arte de gerir desejos.

a política Política: a difícil arte de gerir desejos.

Afinal o que é mesmo política e o que devemos (e o que não devemos) esperar dela? Como já afirmou certa vez um professor de Ética, quando o assunto é política, ninguém é virgem.  Mas o senso-comum que é, por razões óbvias, a noção que boa parte de nós tem sobre o tema,  define política mal e porcamente  em dois eixos:

1) Política é Eleição/ É uma atividade eleitoral.

2) Política é gestão das coisas públicas.

Se política é só isso, o pensamento mais comum é o: “isto não tem nada haver comigo. Isto se faz em Brasília, ou, eu não sou candidato…”

Mas, se você me acompanhou nesta breve introdução, lhe asseguro: você por uma série de motivos quer ir além do senso-comum.  Então, bora refletir sobre a vida humana, pois dela depende o entendimento do conceito de política.

Na vida do homem existem coisas inexoráveis/necessárias. Respirar é uma delas. Outras coisas acontecem na base da escolha e da liberdade de decisão. Este é o lado da CONTINGÊNCIA da vida. Contingente é o que pode acontecer de um jeito, mas não necessariamente, pois pode também não acontecer, ou ainda, pode acontecer de outra maneira.

A política é o que há de CONTINGENTE na nossa natureza. É a inteligência a serviço da busca de uma convivência sempre mais aperfeiçoada. A inteligência e a vontade (de todos ou de alguns) definem coisas para além daquelas que, biologicamente, devem NECESSARIAMENTE acontecer.

Por isso política está atrelada às ESCOLHAS. Construir ou reformar? Mudar ou deixar como está? legalizar ou criminalizar? Aprovar ou proibir? A Política, a grosso modo, é sempre “isso em detrimento daquilo”. Em casa, na escola, no trabalho, estamos mergulhados em política. Dizer, portanto, que um gestor público não faz nada, é um erro grosseiro. Ele pode não estar fazendo o que gostaríamos que ele fizesse, mas certamente está escolhendo, ou seja, está fazendo algo.

ORA, para escolher é preciso atribuir valor entre as opções e se perguntar, para cada escolha: Qual o melhor caminho? Qual das opções é melhor? É parte da vida humana o fato de que para todas as coisas contingentes existem várias possibilidades, muitas delas infinitas e contraditórias e até excludentes entre si. Para cada possibilidade não existe uma só resposta e cada escolha feita, definitivamente nunca agrada a todos. A POLÍTICA É POIS, A GESTÃO DE DESEJOS CONTRADITÓRIOS.

Quando falamos da vida em sociedade, os desejos se materializam em INTERESSES. Tornam-se propostas e até ideologias inteiras. Uns agradam conservadores, outros agradam progressistas. Alguns, agradam apenas aos políticos, outros agradam aos pobres e outros  ainda, agradam aos que tem fé. Cada escolha feita agrada alguém ou um grupo, mas nunca TODOS serão agradados. Se todos querem estar no primeiro lugar, por exemplo, o desejo realizado de um, significa o descontentamento de todos os outros que ali queriam estar. E entretanto, não há problema em desejar, em ter interesses.

Mas, como se vê, os desejos esbarram em um mundo escasso. Não há no mundo maneira para que todos os desejos se realizem. Como afirma Hobbes em o Leviatã, se o homem é por natureza desejante, a cidade é por natureza uma guerra. Se a relação entre os homens é uma relação de natureza conflituosa, a política então lida com situações conflitantes.

ps: Quero escrever ainda dois ou três posts sobre o tema. Apartidários e filosóficos. A quem interessar possa rs.