Arquivo da tag: destaque

Jamais serei Charlie Hebdo!

charlie Jamais serei Charlie Hebdo!

Je ne suis pas Charlie, eu repito: jamais serei Charlie. E antes que me apedrejem deixo claro outra coisa com a qual jamais pretendo compactuar: sou totalmente contrário ao ataque que os chargistas e jornalistas franceses do Charlie sofreram. Nada justifica esta barbárie. Mas eis que então, não vou com a maioria: eu não sou e nem quero ser Charlie!

As várias charges desta turma são um desserviço à liberdade religiosa. Fosse apenas uma gesto político, um grito de denúncia pela arte… mas não. O Charlie flerta com os limites do adequado ao satirizar como se ainda modernos fossemos, religiões, valores, liberdade de culto e de fé.

Não sou Charlie por achar que sátira tem hora e que não lhe cabe toda esta gratuidade. É certo que nenhum grupo tem que ser simpatizante de todas as religiões, coisa deliberadamente difícil na prática. Penso até que a crítica contemporânea à doutrinação religiosa encontre espaço salutar em meio às charges. Afinal, uma charge mais faz pensar que rir e acho isto fantástico.

Mas não sou Charlie porque não brinco o tempo todo com a religião dos outros e acho feio quem faça disto um modo de ser. O limite entre o apelo ao senso de humor ao contar a piada sobre um judeu mão fechada ou sobre um padre glutão é saudável. Se nos levássemos todos tão a sério a vida seria literalmente um saco.

E no entanto, a questão de fundo que mais me preocupa é a propagação da intolerância ao Islã em nome da defesa da tolerância à liberdade de expressão da mídia. Ora, tanto para quem combate sistematicamente a religião alheia como para quem a defende de maneira intolerante falta o bom senso.

Os assassinos não poderão ser justificados. Ferraram com tudo. Perderam qualquer fio de razão em se dizerem insultados pelas charges do Charlie. Nem me interessa se foi por extremismo /fanatismo religioso ou por motivos políticos e armamentísticos escusos: repúdio total a esta turma!

Quanto aos mortos e seus familiares, compaixão e solidariedade. Apenas peço desculpas pelo fato de que – mesmo reafirmando que nada justifica o acontecido – je ne suis pas Charlie. Via de regra, ainda prefiro uma crítica mais respeitosa e reconheço que até a liberdade de expressão deva ter seus limites éticos estabelecidos.

O Casamento e o “amor na escola”.

amor na escola O Casamento e o amor na escola.

Publico um texto de autoria de Cris Guerra. Bom em quase tudo, só tive a ousadia de acrescentar a palavra Casamento ao título. Afinal, formas de amar são muitas. Talvez aquela que sustenta o Casamento seja a mais complexa delas.

Duas da madrugada. O casal que discute no andar de baixo está tentando aprender. Eles pensavam que era só vestir branco, caprichar na decoração e fazer os convites chegar a tempo. Mas não. Na escola, até logaritmo nos foi ensinado. Decoramos a tabela periódica. Nos empurraram química orgânica. Mas nada nos foi dito sobre o amor. Crescemos acreditando que o amor é um golpe de sorte. Algo que surge naturalmente. Quem tem o privilégio de encontrar não precisa fazer nada: o amor simplesmente será. E, enquanto nos livrinhos os príncipes acordam princesas para viverem felizes para sempre, nós seguimos dormindo, sonhando com o impossível.

Com as mais altas expectativas, saímos buscando sapos nas prateleiras. Em meio a tantos produtos, nos confundimos com eles. Comida para nos matar a fome, roupa para nos vestir, gente para nos aplacar a solidão. Casar é prova de competência: nota 10 em investimento.

Na lógica capitalista, o amor se vai junto com a embalagem. Consumidores do novo, aguardamos ansiosos pelo próximo lançamento. As promessas são cada vez mais atraentes. Amores utilitários, perfeitos para exibir. Excelente custo-benefício, atendem a todas as nossas necessidades físicas, estéticas, financeiras, sexuais. Enxergamos no outro um espelho dos nossos desejos, até que a imagem se desfaz e resta apenas o outro – que pena, ele não é como a gente sonhava.

Se o amor é a fuga para esse sentimento de solidão que nasce com a gente, o “consumo” do amor reafirma o abandono. Amores que não se tocam, não se misturam nem se entregam, etiquetas adesivas que permanecem na superfície. Nos corredores dos supermercados, egoísmos a dois fazem as compras do mês. Um empurra o carrinho, o outro paga. Amar é pouco. É preciso inteligência, cuidado, respeito

Amor pede o abandono de si, de vez em quando. Pede responsabilidade. Quanto amamos é menos importante que como amamos. O amor da mãe pelo filho que nasce não é automático: será preciso adotá-lo e entender que não, ele não trará nada em troca. O marido que quer a separação usa o filho como arma – ou escudo. Faltou aprender que pessoas não são coisas. Nem nós, nem os outros.

Vamos exercitando, embora nem sempre em tempo, nas escolas informais da paixão. Os parceiros são nossos professores. Amores que acumulamos, transformados em ódio, desprezo ou amizade, sempre podem ser lição. O amor com que amei o primeiro permanece em mim, mais forte para o último. É preciso colocar o amor na escola. Humildemente, aprender. É sempre um novo idioma, linguagem cheia de armadilhas. Há que treinar a pronúncia e se deixar levar pelos sons de outro país. Amar é uma arte, como é uma arte viver. A paixão é o projeto da casa.

O resto é tijolo a tijolo. O amor não é para amadores.

Cris Guerra – extraído da revista “Veja BH”, edição de 24/09/2014

A Inveja fere os outros e destrói quem a possui.

 A Inveja fere os outros e destrói quem a possui.

Conhece alguém incapaz de lhe fazer um elogio, valorizar suas conquistas e se alegrar com suas vitórias? Tem a nítida impressão de que as vezes, esta pessoa, mesmo procurando demonstrar boas intenções e laços de amizade, na verdade parece curtir puxar seu tapete? Cuidado, você está convivendo com um invejoso!

A palavra inveja vem do latim invidere, que significa algo como não querer ver. Guarde isso. Costumeiramente entendemos mal o que a inveja é e isso é prejudicial pois disfarça os efeitos mais nocivos desta verdadeira patologia da alma. Quer ver só? Uma busca pela web me entregou esta pérola:

“A inveja pode ser definida como uma vontade frustrada de possuir os atributos ou qualidades de um outro ser, pois aquele que deseja tais virtudes é incapaz de alcançá-la, seja pela incompetência e limitação física, seja pela intelectual.” 

Nem sito fontes pois esta definição (falsa) é quase um consenso. Mas não é verdadeira, chegando a ser desonesta. Por quê? Porque a inveja, ou a invídia é a atitude de quem não quer enxergar que, com esforço e dedicação, também poderia alcançar os resultados, sucessos ou bens que são o objeto de sua vontade presentes na vida de outras pessoas. Um exemplo simples é o sujeito que, vendo o carro novo na garagem de seu prédio, sente-se tentado a desdenha-lo (quando não chega as vias de fato de produzir-lhe um arranhão!). Certamente, se estamos falando de um invejoso, ainda que ele não faça nada com o carro novo, procurará de alguma forma atingir o proprietário feliz, nem que seja com uma cara fechada, todas as vezes que se encontrarem no elevador. O mesmo vale para aquela “amiga” que não se alegra com o namorado gente fina que alguém conquistou. Em todos os casos, o mau humor ou as ações danosas do invejoso trazem o seguinte recado: “não quero ver que eu também posso crescer, evoluir, conquistar. Por isso, furo seu balãozinho, puxo seu tapete para que você perca esta felicidade toda e volte aqui para o marasmo de onde eu não quero sair!” (Sim, o invejoso tem a síndrome de Gabriela: “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim…”)

Fica claro como é perigoso o convívio com um invejoso. É preciso não cair em suas armadilhas e se proteger. Por outro lado, é preciso examinar se não somos nós que temos estas atitudes. A inveja é algo letal. Além de buscar espalhar mau humor e tristeza ao seu redor, o invejoso, mergulhado em sua conduta, não conseguirá progredir na vida. Ficará amargurando fracassos e criticando as pessoas ao seu redor. Nunca se dará conta de que ele também tem um lugar ao sol à sua espera. Eis aí a fonte de sua verdadeira tristeza…