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Novos amigos, mas somente até a página seguinte?

divergências Novos amigos, mas somente até a página seguinte?Sei lá se acontece com frequência: você conhece alguém, papo bacana, reto, afinidades.  Um cumprimento no ponto de ônibus, um cafezinho no intervalo da tarde ou uma esbarrada ligeiramente orquestrada pelo destino… logo de cara a situação se esclarece: pelos mais variados motivos a palavra romance não vem ao caso e, em breve, dentro de um prazo que vai durar entre semanas, alguns meses ou mais de um ano, você encontrou e se tornou um amigo de alguém.

Não me refiro à simples percepção de estar em companhia de gente simpática ou de alguém agradável apenas. As marcas da amizade são muito mais que isso. Ontem mesmo recebi um e-mail (o usual seria uma mensagem de Facebook, mas a remetente do tal e-mail é daquelas que curte até escrever cartas), onde se lia:

“Essa tal de amizade pra mim é raiz
Que deixa marcas no solo
É a beleza do colo, do ombro e do sim”

Sou daqueles que dá muito valor à amizade, embora quase nunca expresse isso aos meus amigos. Pareço distante, intransponível, incomunicável. “Sumido” é provavelmente uma palavra que resume. Talvez pelo fato de que fui criado dentro do mantra materno que me dizia “o verdadeiro amigo é aquele que aparece e desaparece na hora certa”.  Enfim, não sou de ligar, de mandar recado, de perguntar por texto se está tudo bem. Mas gosto da mágica que ocorre quando encontro um verdadeiro amigo, uma semana, um mês ou anos após nosso último encontro e tudo transcorre como se não houvesse nunca ocorrido alguma separação. Amigos novos são sempre bem-vindos: à minha casa, aos meus programas, aos círculos dos meus “amigos de sempre” e ao círculo ainda mais restrito dos “amigos para sempre”, às minhas redes sociais. Amigo é coisa rara, encontrar um é como encontrar um tesouro e por isso me empolgo muito quando uma pessoa adentra este espaço seleto que é meu coração.

Ocorre porém que eu sou quem sou: sincero, genioso, insistente… há coisas que para mim são impossíveis! Omitir minhas opiniões sobre assuntos políticos, esconder qual o meu time de futebol favorito, assumir minhas convicções éticas, negligenciar minhas opiniões sobre uma nefasta música ruim… simplesmente não dá. É nessas horas que muitas vezes o amigo promissor acaba por se distanciar. É que ele ou ela confundiram uma posição diferente sobre este ou aquele assunto com  a tal incompatibilidade de gênios, algo que (pense bem) não resistiria nem ao primeiro café tomado juntos.  Talvez não tenham lido no manual da vida que se uma pequena chama de amizade já se acendeu, deve ser de interesse mútuo mantê-la acessa. Ou se esqueceram do que Saint Exupery lembrou à raposa: aquilo a que cativamos passa ser de nossa eterna responsabilidade. (juntar o tema da amizade com um trecho de O Pequeno Príncipe, quem nunca? rsrsrs) 

As vezes, confesso, me incomodo apenas. Outras, tento deixar claro que gosto de conversar com quem pensa diferente, com quem me exige argumentos, com quem me faz querer “brigar”, isto é, sair de minha zona de conforto e minhas “convicções”. Depois penso que se tiver de ser, será. No jogo das diferenças a vida realiza suas seleções naturais e, mesmo assim, intenso que sou, sofro um cadinho na mesma proporção das boas novas lembranças. Mas enfim, aos velhos amigos, os de perto e os de longe, a minha gratidão: gente que sabe exigir o melhor de mim.  E se acaso surgir a pergunta sobre o meu sumiço, lembre-se que você, mais que ninguém, é que conhece este meu jeito de ser.