Arquivo da tag: LIBRAS

Nós e eles. Uma reflexão sobre a LIBRAS.

maos falam Nós e eles. Uma reflexão sobre a LIBRAS.

Inicio a leitura de mais uma unidade sobre a Linguagem Brasileira de Sinais. Retomo alguns pontos interessantes, tendo ainda em mente as respostas dadas por um jovem, ouvinte, à um questionário que apliquei sobre a linguagem dos surdos. Apesar do relato dele sobre toda a curiosidade atiçada por uma escola que se preocupou em revelar aos seus alunos, ouvintes, um pouco mais sobre o modo como algumas outras pessoas se expressam no mundo, o que o entrevistado me disse beirava o que eu até bem pouco tempo sabia também: quase nada a respeito.

Nós, ouvintes, sabemos que existe um grupo com linguagem própria. Possivelmente desconhecemos como esta linguagem surgiu, quais são suas especificidades e, o que torna tudo ainda mais distante, nem sabemos como adentrar este mundo. O mundo deles não é necessariamente o mundo dos surdos, mas também dos ouvintes que não só conhecem a LIBRAS, ou outras linguagens de acordo com o país em que se encontram ( a linguagem de sinais não é universal), mas que conhecem igualmente as dificuldades que a barreira da linguagem podem impor.

Eles”, por outro lado, corresponde então a um grupo minoritário formado por um educador atendo que abraçou a causa, um pai, uma mãe ou um outro familiar amoroso que buscou aprender LIBRAS para que a comunicação em casa fosse a melhor possível e para que a criança surda se estimulasse ainda mais a aprender os sinais, ou um outro profissional capacitado e claro, os surdos que se capacitaram para a utilização desta linguagem.

Nós, os não conhecedores desta forma de expressão, não enxergamos as barreiras, ou talvez as conheçamos apenas de modo tímido. Barreiras transponíveis, desde que aja esforço, educação e interesse. Barreiras que, quando descortinadas, nos colocam em contato com outros iguais: que pensam, que contam piadas, que sabem coisas que não sabemos e que são capazes de ensinar e aprender, de amar e de receber amor. Eles podem não escutar nossa fala, mas estão longe de serem incapazes de uma comunicação entre iguais. Salvo as diferenças, na essência, nós e eles, formamos um conjunto único de pessoas, com uma infinitude de novas possibilidades.

Ps: Este breve texto foi elaborado como tarefa de um curso de complementação pedagógica que estou prestes a finalizar.  Em tal curso, uma das disciplinas foi justamente a Linguagem Brasileira de Sinais.  Separei ainda alguns mitos que acho bacana esclarecer aqui:

Mito 1:  A língua de sinais seria uma mistura de pantomima e gesticulação concreta, incapaz de expressar conceitos abstratos.

Tal concepção declara que os sinais não são símbolos arbitrários como as palavras, mas carregam uma relação icônica ou representacional de seus referentes. No entanto, vários estudos concluíram que as línguas de sinais expressam conceitos abstratos. Pode-se discutir sobre política, economia, matemática, física, psicologia em uma língua de sinais, respeitando-se as diferenças culturais que determinam a forma de as línguas expressarem quaisquer conceitos.
MITO 2:  Haveria uma única e universal língua de sinais usada por todas as pessoas surdas.
Essa concepção ainda faz parte do senso comum. As pessoas normalmente perguntam se as línguas de sinais não são universais. Cada país apresenta sua respectiva língua de sinais. A língua de sinais americana é diferente da língua de sinais brasileira, assim como estas diferem da língua de sinais britânica, da língua de sinais francesa, e assim por diante.
MITO 3:  Haveria uma falha na organização gramatical da língua de sinais, que seria derivada das línguas de sinais, sendo um pidgin sem estrutura própria, subordinado e inferior às línguas orais.
 Em relação a essa concepção, pode-se comprovar que as línguas de sinais são completamente independentes das línguas faladas nos países em que são produzidas. Um exemplo disso são as diferenças entre as línguas de sinais brasileira e portuguesa, apesar dos respectivos países em que são usadas pelas comunidades surdas falarem a língua portuguesa. Assim sendo, é um erro pensar que as línguas de sinais são subordinadas às línguas faladas.
MITO 4:  A língua de sinais seria um sistema de comunicação superficial, com conteúdo restrito, sendo estética, expressiva e linguisticamente inferior ao sistema de comunicação oral.
A alegação de empobrecimento lexical nas línguas de sinais surgiu a partir de uma situação sociolinguística marcada pela proibição e intolerância em relação aos sinais na sociedade e, em especial, na educação. Entretanto, sabe-se que tais línguas desenvolvem itens lexicais apropriados a situações em que são usados. À medida em que as línguas de sinais garantem maior aceitação, especialmente em círculos escolares, registra-se aumento no vocabulário denotando referentes técnicos.
MITO 5: As línguas de sinais derivariam da comunicação gestual espontânea dos ouvintes.
A ideia de que as línguas de sinais não são línguas, mas sim apenas “gestos” que se originam na comunicação gestual espontânea, e portanto, universal, inferior e limitada, advém de longa data, quando acreditava-se que a linguagem estava associada à capacidade do ser humano de “falar”. Essa concepção histórica perpassou os preceitos religiosos e as questões político-sociais. As igrejas ensinavam os surdos a falarem para que esses confessassem sua fé., caso contrário, estariam fadados à queimar no inferno. Pelo contrário, obrigou-se o uso da fala, mesmo sendo essa bastante limitada, não produtiva e, na maioria das vezes, sem significado para o surdo.
MITO 6: As línguas de sinais, por serem organizadas espacialmente, estariam representadas no hemisfério direito do cérebro, uma vez que esse hemisfério é responsável pelo processamento de informação espacial, enquanto que o esquerdo, pela linguagem.
 Bellugi e Klima (1990) apresentam resultados de pesquisas com surdos co m lesões nos hemisférios esquerdo e direito do cérebro. As pesquisas mostraram que aqueles com lesão no hemisfério direito tinham condições de processar todas as informações linguísticas das línguas de sinais. Por outro lado, os surdos com lesão no hemisfério esquerdo tinham condições de processar as informações espaciais não-linguísticas, mas não conseguiam lidar com as informações linguísticas. Portanto, tais estudos indicaram que as línguas de sinais são processadas no hemisfério esquerdo, assim como quaisquer outras línguas. Esse estudo comprova que a linguagem humana independe da modalidade das línguas.

POR: Ronice Muller de Quadros e Lodenir Becker Karnopp