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Este blog avisou: confiar em pesquisa de “opinião pública” é um problema…

ipea errou Este blog avisou: confiar em pesquisa de opinião pública é um problema...

Depois de tanto alarde sobre o resultado da pesquisa do IPEA e das campanhas que correram a internet por causa delas, eis que, de acordo com os sites de notícias, o IPEA agora afirma que errou na apresentação dos resultados.

Ora, para quem (que como eu) estava entristecido com o resultado da pesquisa, 26% não representam grande alívio sobre o modo como o brasileiro lida com a questão do sexo, da violência e da hiper-erotização (nós falamos disso neste post aqui).  Para quem contudo viu na divulgação das pesquisas um golpe do Governo para camuflar-se frente às acusações sobre a venda da Petrobrás, esta novidade sobre o erro do IPEA o que seria, um tiro no próprio pé?

Resumindo a questão: O IPEA agora diz que errou, o diretor do Instituto pediu exoneração do cargo, e o brasileiro ficou com cara de interrogação: em quem ou no que confiar?

Certo é que este causo reafirma o que expressei no post anterior: é preciso muita cautela em relação aos resultados das ditas “opiniões públicas”. A verdade dos fatos pode mesmo passar ao largo destas pesquisas. Contudo, uma vez divulgadas, as tais pesquisas atuam como formadoras de opinião, sobretudo perante a parcela da população que prefere não avaliar, ponderar e discutir.

Que este episódio, digno de Os Simpsons, nos alerte em relação às pesquisas de intenção de voto que antecedem as eleições. Quem vai na onda gerada pelas pesquisas de opinião pública, sem o menor senso crítico, geralmente não pensa por si mesmo, mas gosta de “comprar pronto” o pensamento de outros… e  ai pede para ser ludibriado.  #EuNãoTireiARoupaAtoaMasNãoDeixeiDeSerEnganada. #ProntoFaleiRs

Quem está certo? O Brasil é machista ou fomos enganados pelo IPEA?

eu nao mereço Quem está certo? O Brasil é machista ou fomos enganados pelo IPEA?

Repare as fotos acima. Na contramão da campanha contra os resultados da pesquisa do IPEA,  em que muitas internautas postaram as fotos com a hastag #EuNãoMereçoSerEstuprada, eis que surge uma outra iniciativa, dizendo que os resultados da pesquisa servem para manipular a opinião pública.

A esta altura do campeonato um pouco de informação, neste ano em que seremos cercados de pesquisas sobre a  opinião pública,  não é de todo um mal, estou correto? Se você concorda com este pretenso blogueiro, passemos pois a elas. Primeiramente quero elucidar três pontos (e deixo de lado a questão de amostras representativas neste post, o que, trocando em miúdos, diz respeito aos cálculos e à escolha em um determinado grupo de indivíduos, de uma parcela menor, de cuja opinião se extrai uma ideia sobre a opinião do todo, isto é, do grupo inteiro).  Vamos a eles:

1) Toda opinião pressupõe 2 elementos: um dado da realidade (que é o objeto da opinião) e o valor que atribuímos este dado, ou objeto.

2) Um objeto de pesquisa para ter relevância na esfera da opinião pública tem que apresentar uma especificidade: ele, o objeto, deve ser de matéria pública. Afinal, de que adiantaria perguntar para as pessoas sobre assuntos que elas não conhecem? Por sua vez, o requisito óbvio para que um tema seja de interesse da agenda pública nos dias de hoje, parece ser a presença do tema nos meios de comunicação. (Lembra-se que nestes dias o assédio sexual  às mulheres dentro dos trens foi manchete? Pois é, pouco depois a pesquisa do IPEA foi divulgada…)

3) Para que a opinião pública possa ser entendida como a somatória das opiniões individuais o que é preciso? R: que todos os entrevistados tivessem opiniões individuais (somáveis) sobre os temas da agenda pública, o que nem sempre acontece. A população nem sempre tem acesso a notícias isentas de ideologia por parte da mídia e nem entende bem os fatos ou processos que geraram estas notícias. Do mesmo modo, as opiniões muitas vezes não são somáveis. Alguém por exemplo pode dizer que não gosta do governo Dilma porque a acha uma ignorante, outro também diz não gostar do governo dela, mas porque não admite a ideologia do Partido dos Trabalhadores. Estas opiniões, ao menos em tese, não seriam “somáveis”.

Dito isso, imagine o que significa o resultado de uma pesquisa de opinião pública sobre intenções de voto, ou sobre a satisfação em relação ao desempenho de um político: se a população não tem critérios, nem possibilidades de comparação com um exemplo de candidato ideal, ou de governo ideal, como vai atribuir um valor (mesmo que qualitativo, do tipo de “péssimo à ótimo, escolha uma opção)? No exemplo de uma opinião sobre o governo Dilma, isto se torna evidente: nossa população mal conhece as competências e atribuições que cabem a um presidente, entretanto, respondem às pesquisas na rua sem pestanejar um minuto sequer.

O fato é que, dificilmente se tem no campo das coisas públicas, uma opinião formada. O que temos são simpatias, antipatias, gostos, desgostos… opiniões formadas exigem capacidade de pensamento abstrato, conhecimento aprofundado sobre o tema. No caso de opinião sobre votos, a verdadeira opinião pública, se existisse, deveria levar em conta a ética e o melhor programa de governo e não simpatias e  ideologias rasas… Sem contar que, por mais paradoxal que pareça, a “opinião” pública quando divulgada, é ela mesma uma… formadora de “opinião”!

Logo, as tais pesquisas de opinião, dizem sim alguma coisa sobre os grupos da sociedade, mas devem ser olhadas com senso crítico. Muitas vezes não são opiniões fundamentadas, são apenas indicadores de para onde sopra o senso comum. Isto explicaria alguns resultados ditos contraditórios presentes na pesquisa do IPEA. Afinal, em um país que não tem elementos para julgar os valores e assim emitir opiniões, é comum se repetir disparates, coisas ditas aqui e ali, ideias “prontas” se me permitem dizer. O que é um sintoma grave, que demonstra a falta de gente que pensa, que pondera e que discerne. Mas… esperar o que, se nem em matemática, que é ciência exata, nosso país consegue uma boa posição no ranking ,né? #BrasilUmPaísDeTolos? #AtéQuando?!